A VIDA E A MORTE – Duas faces da mesma moeda

Não pares junto à minha campa a chorar,

Porque não estou lá.

Não estou adormecido.

Sou os mil ventos que sopram,

Sou o brilho do diamante na neve,

Sou a luz do Sol na semente madura,

Sou a chuva branda do Outono.

Na quietude macia da luz matutina

Sou a ave que voa veloz.

Não pares junto à minha campo a chorar,

Eu não estou lá,

Eu não morri.

 

AUTOR NATIVO AMERICANO DESCONHECIDO

 

É curioso como a morte faz parte da nossa existência, sendo que, no momento em que nascemos, estamos já destinados a morrer, mas passamos toda a nossa vida a tentar negar esse facto inevitável.

A morte é um tema tabu em famílias, escolas e comunicação social. Na verdade, na televisão é mostrado a toda a hora, mas duma forma banal e não propriamente natural e educativa. É um assunto que nos custa abordar, pois não conhecemos os segredos da morte. Existem experiências de ‘quase morte’, mas a palavra ‘quase’ já indica que ninguém nos pode assegurar o que está para lá da cortina da Vida que conhecemos. Tudo aquilo que não podemos explicar e conhecer com a mente assusta-nos e preferimos até negar a sua existência. Como diz o Dalai Lama: “Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde.
E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem-se do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido.”

Vivemos de facto como se nunca fossemos morrer. Não valorizamos a preciosidade de cada momento partilhado, não reconhecemos a dádiva da presença das pessoas amadas nas nossas vidas e, quando elas partem, muitas vezes choramos não só a sua partida, mas também o tempo perdido, todas as palavras que não foram ditas, todo o Amor não partilhado, por acharmos que somos capazes de correr mais depressa que a morte.

A Morte apanha-nos sempre! A pergunta é: como aceitar isso com dignidade e paz? Uma das razões pela qual, hoje em dia, não se enfrenta a morte com tranquilidade no Ocidente é o facto de que a morte se tornou algo solitário, mecânico e desumanizado. Raramente se morre em casa, rodeado das pessoas que se ama, mas a maior parte das vezes morre-se em quartos de hospital esterilizados, rodeado por máquinas e batas em movimento que só têm olhos para a linguagem dos desfibriladores e monitores cardíacos.

Tudo é feito para impedir a morte. Aí os médicos se sentem no seu elemento: combater a morte, mantê-la à distância por mais algum tempo… mas quando se trata de aceitar que se está a travar uma batalha perdida, não no sentido de desistir do doente, mas de aceitar que está na hora de acompanhar um doente terminal com presença e amor até a um umbral assustador e desconhecido, há muito pouca gente com estômago suficiente para o fazer.

O que é afinal a medicina? Trata-se de uma profissão humanitária ou de uma ciência despersonalizada que pretende servir o prolongamento da vida mais do que a diminuição do sofrimento humano? Já o mito de Esculápio ou Asclépio nos pode ajudar a entender que é preciso humildade e humanidade nesta profissão: Existem várias versões deste mito, mas as mais correntes apontam-no como filho de Apolo e Corónis, uma mortal. Corónis, grávida do Deus, foi morta por Apolo. No entanto, Apolo sentiu uma dor imensa ao ver a sua amada ardendo nas labaredas da pira funerária. Resolveu então salvar o seu filho, arrebatando o bebé do ventre materno. Foi levado para ser criado pelo centauro Quíron, que o educou nas artes da cura. Aprendeu o poder curativo das ervas e a cirurgia, e adquiriu tão grande habilidade que superou o seu mestre. A fama subiu-lhe à cabeça e a arrogância apoderou-se do médico pelo que ousou trazer os mortos de volta à vida. Há quem diga que fez isso por dinheiro. Agora Asclépio desafiava os deuses e Zeus vingou-se, matando-o com um raio.

Mais cedo ou mais tarde um paciente não será curado, a morte chegará e de Deus o médico transforma-se em fracassado. Por mais recursos tecnológicos de que ele disponha, a morte será sempre vencedora. Na verdade, o poder do profissional de saúde residirá justamente na sua capacidade de ‘acompanhar’, fazendo de tudo para assegurar as melhores condições de vida ao seu paciente e permanecendo junto dele no momento da morte inevitável.

O que pode ser mais precioso na morte e no luto do que ‘acompanhar’? Esse acompanhamento não tem que e nem deve ser feito apenas pelos profissionais de saúde, mas também pelo amigo amoroso, pelo ser humano verdadeiramente humano que aceita a vida como é, com as suas alegrias e tristezas e por isso sabe aproveitá-la. Um ser humano que acompanha na morte e no luto é um ser que sabe lidar com os seus recursos e, ao mesmo tempo, com as suas limitações. Trata-se essencialmente dum ser humano que AMA, dá, cria, semeia e simultaneamente se prepara para a morte, que sabe que a felicidade partilhada se multiplica e a dor partilhada se reduz.

Também todos nos perguntamos algum dia se há vida depois da morte. Há quem diga que sim e haverá sempre quem o negue. As minhas próprias experiências em criança e a morte da minha irmã levaram-me a acreditar que de facto há algo que permanece mesmo após a morte física, que nada nem ninguém pode extinguir.

Contudo, aquilo que temos de mais precioso é o Agora e isso implica que, mais do que procurar uma comunicação com os mortos, há que cuidar dos vivos. Como sei no meu coração que quem morre não se extingue, meramente se transforma, não costumo chorar o morto num funeral, choro sim pelos vivos, pela dor de quem fica e tem de continuar a sua vida sem a presença física daquele Ser que amava.

Como podemos acompanhar os vivos que experimentaram os efeitos devastadores da morte no seio da sua família? O que pode ajudar os enlutados a reencontrar o sentido na vida após a perda? Como reencontrar a semente da vida na morte?

Além disso, também nos devíamos questionar qual a forma de melhor honrarmos a memória de quem partiu? Muitas vezes interpretamos mal a palavra ‘honrar’ e achamos que temos de continuar a vida de quem partiu, que para honrá-la temos que viver os seus sonhos e concretizar os seus projetos, pondo os nossos de lado. Não obstante, isso não significa honrar ninguém, significa anularmo-nos e viver uma vida que não nos pertence. Para honrar quem partiu não há como fazer aquilo que é verdadeiramente importante para nós. Só assim será possível abençoar a vida quando a morte se aproxima. Que mais poderão desejar as pessoas que nos amam e que já partiram senão a nossa própria realização? Com o nosso êxito, com a nossa felicidade e realização pessoal estaremos sempre a honrar a memória de quem partiu, pois será a prova de que a morte do ente querido serviu para que começássemos a dar valor à vida, para que nos apercebêssemos de que a vida é urgente, pois o amanhã é apenas uma hipótese e o presente é isso mesmo: um presente dos céus que há que receber, cuidar e aproveitar com gratidão.

Necessitamos de uma Educação que tenha em conta a morte e o luto, pois uma criança precisa de conviver com a verdade, para poder encarar a vida. Para vivermos verdadeira e autenticamente a vida, teremos que integrar a morte.

No Curso de Coach em Educação Transpessoal, o Educador Transpessoal é formado não só para aprender a acompanhar os seus alunos/filhos/clientes na vida quotidiana, mas também aprende como acompanhar em presença e consciência amorosa no processo de morte e luto. Afinal a morte e a vida são apenas duas faces da mesma moeda.

 

Miriam Agostinho – Coach em Educação Transpessoal, Coordenadora da área de Educação de Língua Portuguesa da Escuela Española de Desarrollo Transpersonal

Mais informações através de: educacao@escolatranspessoal.com

 

Coach Educacion Transpersonal Port Oct