Amantizei-me

amantes (1)

Rosa tinha chegado horas antes de Afonso. As horas suficientes, para colocar o empadão no forno e deixá-lo arrefecer ao ponto de não se poder comer, de tão frio que estava. “Maldito trabalho que não o deixa chegar a horas de jantar”, pensou para consigo inúmeras vezes, até ouvir a porta bater. Ela vestia o fato de treino velho e roçado de tantos anos. Esperava-o sentada no sofá quando o viu entrar e pousar o blazer na cadeira, ao mesmo tempo que desapertava ligeiramente a gravata, vermelha.

– Boa noite! – Cumprimentou ele de voz entrecortada e talvez cansada. A sua expressão assumia traços carregados e os seus olhos, cor de avelã, eram sombrios.

Rosa virou-se na direcção dele. – Então atrasaste-te? Fiz empadão… – Comentou com a raiva engasgada na garganta. Não gritou. O seu rosto fatigado traduzia a falta de fome e angústia pela falta das respostas dele.

– Tive uma reunião complicada. Acabei por comer uma sandes no escritório. – Confessou pausadamente, como se não houvesse mais perguntas ou respostas para além daquilo. – Vou-me deitar, Rosa! – Ao dar-lhe um beijo casto nos lábios carentes e secos.

Ela ficou imóvel. Não o questionou quanto à complicação da reunião, ou o repreendeu quanto à sandes. Foi no instante que ficou, novamente, sozinha no silêncio da sala que foi invadida por uma sensação estranha de mentiras. Encolheu os joelhos na direcção do rosto e apertou-os contra o peito, baloiçando-se lentamente. Ficou assim por tempo indeterminado… Como que, hipnotizada com a palavra mentira a martelar-lhe o pensamento.

Levantou-se e – descalça de passos cadentes – palmilhou a madeira do chão até o seu corpo estremecer ao lado do blazer. Parou e mirou-o. Pegou-lhe nas lapelas e cheirou-as. O perfume dele que se misturava com algo… Algo feminino, como se ele trouxesse naquele casaco o segredo dos seus atrasos. “Não pode ser, o Afonso não me faria isso”, disse sem voz, desassossegando, ainda mais o espírito. Voltou a passar-lhe o nariz – em longas inspirações – até sentir o estômago a embolar, o corpo a tremer e o cérebro a gritar incessantemente: Ele tem outra, ele tem outra…

O medo possuía-a, entranhava-se no corpo e incendiava-lhe o sangue de raiva. Meteu a mão no bolso interior do casaco e apalpou o telemóvel. Nesse tacto, o coração dela acelerou descompassadamente e as pernas, metidas no velho fato de treino, tremeram como gelatina. Inspirou profundamente em busca de coragem e foi nesse imediato que o tirou para fora. De mãos trementes correu as suas últimas chamadas, das quais não havia nomes de mulheres. Voltou ao menu e seleccionou as mensagens. Abriu a primeira da lista – recebida às onze e meia, em nome de Roberto – quando leu “meu amor”. Os seus olhos, marejados, desabaram e as lágrimas, contidas, caíram em fio pelas faces rosadas. Os dedos instintivamente correram todas as mensagens e na última marcou o número. Do lado de lá a voz ensonada de uma mulher que atendeu com um sedutor, “Sim amor”.

Rosa desligou. Não havia margem para dúvidas, Afonso tinha uma amante. Colocou o telemóvel no bolso do casaco e voltou para o sofá. Cobriu-se com a manta que, tantas vezes, usavam para se aconchegar, os dois, enquanto assistiam a um filme. Encolheu-se e abraçou o próprio corpo, elanguescido e choroso. Não dormiu, nem tão pouco tentou, não o queria fazer. Não depois de descobrir que o marido adquirira um estado civil paralelo ao de casado.

Na noite seguinte.

Afonso chegou mais cedo – mais cedo que nas últimas noites – para jantar. Rosa trazia um vestido, caqui, tipo envelope, com decote em V e nos pés, uns saltos agulha de tons castanhos. Estava na cozinha, de costas, em frente ao fogão.

– Boa noite! – Disse ele, num tom de espanto, quando lhe pôs a vista em cima e mirou, obscenamente, as suas curvas acentuadas pelo corte do vestido.

Ela virou o rosto e, sensualmente, chupou o dedo indicador, ao provar o molho da carne. – Boa noite, meu amor! – Respondeu ao fitá-lo intensamente. – Serviu-o de um copo de vinho fresco e estendeu-lhe a mão, oferecendo-se para um brinde.

Os copos tlintaram e Afonso fitou-lhe o decote de forma penetrante, relançou os olhos pelas pernas delineadas, em cima dos saltos. – Tu estás… Linda, Rosa. – Assumiu.

Rosa aproximou-se dele. – Gostas? – Sussurrou-lhe lascivamente.

Os músculos dele retesaram de desejo. – Sim, estás sensual.

Ela postou-lhe um beijo repuxado no lóbulo da orelha. – Óptimo, porque a partir d´hoje, também quero ser tua amante.

Estar casado é assumir, publicamente, o estado civil de amantizado

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

 

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