Archive for the ‘Relacionamentos’ Category

O equívoco da paixão

 

passion 

Principalmente no meio espiritual existe a tendência para desvalorizar e até denegrir o significado da paixão.

Como se ser espiritual e ser apaixonada não fosse compatível. Como se ser espiritual fosse sinónimo de ser enfadonho.

Creio que esse equívoco espelha apenas um equívoco ainda maior sobre a paixão em geral. Dou-me conta que a maior parte das mulheres acima dos 30 anos diz já não acreditar na paixão. Dizem que fizeram o luto dessa ideia romântica, desse sonho imaturo, vendido pelos filmes de Hollywood sobre o amor à primeira vista, a paixão arrebatadora, que dá lugar ao ‘felizes para sempre’.

E realmente há uma razão para os filmes terminarem precisamente nesse ponto. O ‘felizes para sempre’ dá muito trabalho e não vende tão bem como a magia natural da paixão. Mas porque rende tanto afinal essa história da paixão louca na qual dizemos não acreditar? Se não acreditamos, porque vamos ao cinema ver o filme e gastamos um maço de lenços de papel para lavar as lágrimas da emoção que nos provoca?

Estes filmes têm audiência porque, no fundo, ansiamos por essa história, mas mais tardar aos 30 já nos convencemos de que precisamente essa história não é para nós e que só nos resta contemplá-la nas telas do cinema. Isso impede de nos debatermos com o verdadeiro anseio pela paixão dentro de nós. Não será na verdade esse cinismo evidente em relação ao amor romântico e à paixão nada mais nada menos que um mecanismo de defesa para nos protegermos da dor da desilusão?

É que quando chegamos aos 30 já todas passámos pelo menos uma vez por uma dessas histórias de Hollywood na vida real. Não é verdade? A única coisa que pode não ter resultado daí é o final feliz, mas o resto: a magia do primeiro olhar, aquele clique, o beijo apaixonado em que te perdes, o reconhecimento da alma desse objecto de paixão que pareces conhecer desde o início dos tempos… Tudo isso já viveste. Não podes negá-lo portanto. Existe. Na paixão reconheces a magia da vida. Impele-te para uma versão mais ousada de ti porque te mostra que és muito mais do que aquilo que julgavas ser.

Os filmes inspiraram-se precisamente na vida e não ao contrário. A arte em geral é a contemplação certeira da realidade e não uma construção da imaginação, como muitos preferem designá-la. A paixão existe e é o motor necessário para a mudança, para a realização plena e até para a criação. Há que admitir que simplesmente porque o desfecho dessas paixões não correspondeu ao que nós desejávamos, fechámos o coração por acharmos que era mais seguro para nós não voltarmos a cair na armadilha da paixão e começámos então a contar-nos o único conto de fadas que não é real, de que o grande amor não existe ou que, se existe, certamente não é para nós.

Queremos proteger-nos desse perigo da paixão e não nos damos conta que, com isso, estamos a abrir cada vez mais a ferida de não vivermos o que é suposto viver. Negamos a vida ao rejeitarmos a paixão.

O grande equívoco não reside sequer na questão se a magia da paixão existe ou não, mas no facto de que o ‘felizes para sempre’ só pode acontecer sob uma única condição: nessa paixão pelo outro eu tenho de aprender a colher o fruto mais proibido de todos: a paixão por mim mesma.

Ninguém promove essa paixão por motivos óbvios. É perigoso apaixonarmo-nos por nós próprias. A paixão promove a loucura e a espontaneidade. Se formos apaixonadas por nós, vamo-nos estar nas tintas para aquilo que os outros dizem ou pensam. A ‘boazinha’ vai ter de morrer para que possa dar lugar àquela que sempre desejámos ser, mas nunca tivemos coragem de admitir.

Nesse momento, vai ser mais importante responder ao nosso ímpeto de ir ver a peça de ‘Romeu e Julieta’ do que responder com um ‘sim’ forçado ao pedido de ajuda de uma amiga que precisa de apoio na mudança de casa. Vão chamar-nos egoístas e egocêntricas e esse é um preço que estamos dispostas a pagar apenas quando se trata das loucuras cometidas em nome da paixão pelo outro, mas nunca por nós.

A ironia da questão é que isso é tudo o que nos separa do ‘felizes para sempre’: a paixão por nós. Muitas se perguntam: e como é que nos apaixonamos por nos próprias? É fácil! Paixão é reconhecimento de algo maior, de magia, de providência divina, de beleza e verdade. Só precisamos de reconhecer isso em nós e apaixonar-nos-emos. Se formos a ver, é muito simples. Eu convivo comigo há quase 32 anos e ainda consigo descobrir coisas novas sobre mim a cada dia. Todos os dias me surpreendo. Está na hora de admitir que esta é a melhor relação que alguma vez vou ter. Apaixono-me quando me olho nos olhos e reitero o compromisso comigo mesma, a promessa de satisfazer os meus desejos, de colocar a minha felicidade acima de qualquer outra coisa.

A paixão pelo outro serve apenas este propósito: conhecermo-nos melhor, reconhecermos os nossos sonhos e apaixonarmo-nos loucamente por nós próprias. Aí o final feliz torna-se não só uma possibilidade, mas uma certeza.

Nessa paixão, como em qualquer outra, vamos sentir muitas vezes o desencanto, vamo-nos chamar nomes e bater com a porta para logo a seguir nos apaparicarmos e apreciarmos a nossa beleza. Reconhecemos que afinal somos ‘a tal’, aquela que nunca nos vai abandonar e que, nem que seja só por isso, convém amar eternamente.

Miriam Agostinho

Coach em Educação Transpessoal

educacao@escolatranspessoal.com

Contradição eu sou

Eu sou o riso maléfico da bruxa
e o choro inocente do recém-nascido
Eu assumo o poder, capaz de dominar mundos
e mantenho em mim a fragilidade de uma pena sem rumo
Voo alto e sou ousada como a águia
e jazo enterrada com os meus demónios sete palmos abaixo da terra
A profundidade do mar é espelhada no meu olhar intenso
e sou superficial como uma ilha inacessível
Vivo a imortalidade no Amor que brota do meu coração alado
e acolho a efemeridade do tempo em cada sopro de vida
Sou flexível e adapto-me a cada estação do ano
Sou rígida e impenetrável nas minhas convicções
A Rainha, segura e soberana, habita-me
tal como a mendiga despojada de qualquer valor
A sabedoria da Deusa Atena guia-me em cada acção
Mas ignoro por completo as leis do coração que me aterroriza
Acrescento sentido à vida de muita gente
e lanço a inquietude em outras tantas almas
Sou venerada por uns
e desprezada por outros…
Eu sou a manifestação do mistério da vida
que se revela na beleza da MULHER

Miriam Agostinho

Íris de Maria Garcez – Um conto para curar e encantar

Um conto inspirado sobre os medos do Ser Humano da autoria de Maria Garcez:

Íris

            Era noite no país das estrelas, Íris dormia profundamente na sua rede encantada, rodeada por pequenos pirilampos mágicos. No seu mundo acreditava-se que os pirilampos protegiam as crianças (e os adultos!) durante o sono profundo.

            Tudo parecia ser uma noite igual a tantas outras, mas… estava prestes a acontecer um momento de verdadeira magia. Uma magia que ninguém alguma vez assistira…

De repente Íris acordou sobressaltada, o coração disparou a mil, não sabia muito bem o que sentia no seu coração, era algo que a ultrapassava! Um dos pirilampos que iluminava e dava encanto ao seu sono, observa-a de longe enquanto pensava:

 

–          Fantástico! A magia está mesmo prestes a começar!

 

Enquanto isso, Íris levantou-se rapidamente da sua rede e caminhou pé ante pé pelo corredor que ligava o seu quarto ao dos seus pais. Nesse corredor existia um objecto que esta pequena não gostava mesmo nada! Um espelho! Mas não era um espelho qualquer! Esse espelho, sempre que ela olhava para ele via-o pintado de negro e ela assustava-se tanto!

Quando chegou ao quarto dos pais, abriu a porta subitamente e disse:

 

–          Tenho medo!!! – com o coração a bater rapidamente enfiou-se na cama dos pais.

 

O seu pai, conhecido cientista das estrelas disse-lhe:

 

–          Linda Íris medo? Que patetice! O que sentes mesmo?

 

–          Não sei papá, não sei, mas o meu coração não pára de bater. E é tão rápido sente!!! – disse a pequenina assustada.

 

Rapidamente se ouviu uma voz tranquila, era Zázá, a sua mãe:

–          Meu amor, é só o teu coração a querer falar contigo. Respira fundo, só ele sabe a verdade por detrás do que estás a sentir!

 

–          Mas mamã, como é possível o meu coração falar? – perguntou Íris muito admirada.

 

–          Fecha os olhos, respira fundo e sente o batimento dele…e ouve o que o ele tem para te dizer – respondeu-lhe Zázá. Read more »

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