Ciume encabrestado

Que atire a primeira pedra quem nunca pecou. Que se atire da Ponte 25 de Abril quem nunca sentiu ciúmes. E dito assim, desta forma, teríamos uma imensa fila na travessia sobre o Tejo e os últimos a sucumbir seriam os bombeiros por terem de nos salvar a todos, antes.

Todos nós em alguma fase da relação já sentimos, uma pontinha de ciúme, uma linha de ciúme ou uma ciumeira encabrestada que, por pouco não acabou em bofetada (que a violência implícita seja de foro literário e não físico).

O ciúme é tão vasto, no que toca a emoções, que resumido seria apenas medo. Medo de perder. Medo da ameaça – real ou imaginária – que criamos ou sentimos a cada vez que alguém ousa pousar um fio de nada no que achamos ser nosso por direito, o amor. O amor que sentimos e que nos alimenta, dia após dia, noite após noite, passando a fazer parte de nós, da nossa vida; como o ar, a água ou o sangue que nos corre nas veias. E pronto, a partir dali – do dia em que ousamos amar – ficamos susceptíveis a sofrer de tal patologia: ciúmes.

Ciúme dele ou dela, disto ou disso, daquilo ou daqueloutro, de tudo o que interfere com o desejo que nutrimos em conservar alguém junto de nós. É normal; quem ama tem medo, quem tem medo, ama e sente ciúmes. Nunca um anda à solta sem o outro, como se fossem um duo que actua em paralelo. Um abarca o amar, o outro o possuir – só para si – o parceiro(a).

É saudável e convenhamos que na sua dose q.b. nos engrandece o ego, quando na sua consequência nos sentimos amados, queridos e desejados. Que é difícil ao outro partilhar algo que ama profundamente, que protege do olhar alheio, que preserva da ameaça vinda de fora, seja ela; macho ou fêmea.

O pior é quando tudo isto se destempera e salga. Aí operam os sintomas negativos associados a esta patologia – que devemos educar e prevenir -; a ansiedade, a insegurança, a desconfiança, a humilhação, a tristeza, o desgosto, a raiva, o descontrole, a vingança e a depressão. Perante estes sintomas, temos o caldo entornado, pois tudo isto misturado num caldeirão efervescente explode. Eclodem emoções que nos cegam, sentimentos que nos matam (por dentro) e a quem tanto tentamos preservar e proteger, a quem tanto desejamos amar, transfigurando-se em obsessão. E se é obsessão deixou de ser amor. É doença. E se é doença, não é saudável. Se não é saudável, então é prejudicial. Prejudicial aos portadores e em maior escala às vítimas. Vítimas de um amor contaminado pelo ciúme, que de benigno passou a maligno.

Antes de te atirares da Ponte 25 de Abril, poupando os bombeiros de afazeres escusados, escuta:

Emprega o teu ciúme em doses moderadas, não vá a tua – suposta – ameaça externa, ganhar território e transformar-se em interna. Quando pensas que estás a defender o amor com o teu ciúme doentio, lembra-te que estás apenas a permitir que o amor abandone o duo, formado inicialmente, por ser sadio.

Se o teu ciúme tiver um apêndice obsessivo, opera-o antes que ele mate quem amas.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

 

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