Das mulheres … a estatística

Dedicado às mulheres que faleceram vítima de monstros, este sobre uma mulher, madeirense, que – tal como as outras – foi promovida a estatística.

Gostaria de acrescentar a este relato – verdadeiro –  a minha vontade de que as estatísticas possam ser diferentes. Grandes manchetes a anunciar: “foram sentenciados a prisão perpétua 100, 200 monstros que violentaram as suas mulheres/companheiras/namoradas”. E falta, sempre, acrescentar que a cada mulher violentada correspondem crianças/jovens cuja visão do mundo e das relações, do amor, poderá ser, para sempre, “perturbada”. Resta, ainda, referir que as estatísticas das heroínas mortas não contêm todos os números referentes às vítimas dos violentadores psicológicos que matam, também, mas …. devagarinho.

A noite passada faleceu uma “estatística”.

Vezes e vezes violentada, agredida, humilhada, partiu para a tão ansiada paz.

Entrará, directamente, para o número de vítimas de violência doméstica. Muitos chorarão a sua penosa e resiliente vida. Alguns criticarão o energúmeno que a agrediu vezes sem conta e a terra continuará a girar – ao seu ritmo – à volta do sol. Os mesmos homens que fazem leis brandas que apenas protegem os agressores e deixam as vítimas à sua própria mercê, terão todo o cuidado ao inscrever mais um algarismo nas contas deste balanço. O padre proferirá uma humilia emocionada e a orfã acreditará que não está só. O próprio energúmeno irá ao funeral certificar-se de que se cumpriram os seus intentos e, eventualmente, derramará uma lágrima de qualquer coisa que rime com sentimento.

Há – decididamente – pessoas perigosas à solta. E à vontade. Esbofeteiam com a mesma facilidade com que insultam. Fazem chantagem emocional com a mesma ligeireza de um pontapé e sentem-se recompensados pelas imensas nódoas negras com que presenteiam as suas “presas”. Riem de escárnio quando as vêm regressar – total e cruamente – indefesas dos Centros de Saúde ou dos Hospitais. “Ah sim, foste fazer queixinhas?! Vais ver o que é bom pra tosse. Pa próxima hás-de ver o que é razão pa queixinhas”  disse ele repetidas e pesadas vezes. E tantas foram as “próximas” que – a seguinte – foi de vez. Definitiva como a eternidade.

A noite passada, faleceu uma estatística e os “homens des-testiculados” que elaboram leis sem vigor ou convicção de que este é um dos mais hediondos crimes, deveriam ser presenteados com igual “enxerto” e permanecer, indefesos e frágeis à mercê do violentador. Há guerras justas e penas de Talião recomendáveis. É triste, triste e profundamente derrotador que tenhamos chegado a este ponto.

E o/a orfão/orfã? Quem se preocupa? O que o/a pode libertar e proteger? Quem?

Quem os “resilienciará” ….

Hoje, derramo lágrimas de tristeza, derrota e desespero.

A esta sociedade, não pertenço. Não mesmo.

©amak
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