Eu, tu e o outro

mulher-no-computador

Antigamente – do que me lembro dessa época – tremíamos, corávamos, treinávamos discursos em frente ao espelho, dias a fio, até finalmente ganharmos a tal coragem, para encarar e comunicar com um “desconhecido”, com um possível amor, com um amigo recente, com alguém que não fazia, até então, parte das nossas relações. E falo disto numa época não tão longínqua quanto se possa imaginar, afinal eu tenho pouco mais de trinta anos e isto acontecia até os meus vinte e muitos.

Hoje tudo mudou. Deixamos de corar, deixamos de treinar discursos – por serem desnecessários –, de não ter assunto para alguém que não conhecemos, por termos a tamanha facilidade de dizer e desdizer qualquer coisa em segundos apenas, através de um clique. Abrimos o computador, acedemos à nossa rede de amigos (conhecidos inicialmente), para depois passarmos a ter uma lista infindável de contactos que nunca vimos, que não sabemos serem reais ou imaginários, que não nos encaram, que não se mostram por todas as razões e mais algumas, que editam cantigas bandidas, que contagiam espécies, que simplesmente falsificam bilhetes de identidade, por lhes ser a partir dali, tão fácil enganar. Falo, está claro, do nosso amigo facebook: rede mundialmente utilizada e partilhada por milhares de pessoas. Uns de boa-fé outros nem tanto – atrevo-me a dizer talvez a maioria e que me perdoem todos os outros. – Os sérios.

E se antes tinhas uma data de rituais a cumprir até te convenceres de que aquele amigo era verdadeiro, que aquele amor era real e sincero, que muitas vezes te faltariam as palavras para descrever sentimentos, hoje é facílimo, ao invés de muito fácil. Fomos assombrados por facilitismos de cliques; likes, aceitar, comentários, publicar, bloquear, apagar, aldrabar, seduzir, e mentiras umas atrás das outras… De repente está tudo em casa, a passear nas ruas do facebook de mãos dadas com namorados que nunca viram, a aceitar e responder a galanteios de amigos sedutores – que tão pouco conhecem – a incendiar provocações alheias da outra esquina e ninguém cora, nem o volume aumenta de tom, a ninguém falta coragem para falar ou sequer calar.

Falta apenas a ousadia de olhar (nos olhos) e viver a vida real. Passear nas ruas esburacadas da vila e perceber que ali, ainda há gente que cora com um simples assobio ou um piropo atirado do cimo do prédio, por não ter as teclas à mão para responder: Obrigada pelo elogio J

Ali, em carne e osso, dir-se-ia em silêncio: Vai-te catar!

Não extingas a tua vida no ecrã de um computador, para que nunca percas a beleza de corar e assim viver.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

 

 

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