IDEIAS ÀS SEXTAS – Dentro das memórias

Um livro pequeno, íntimo, confessional, fechado dentro de uma dor alheia que nos contamina, que se torna nossa, que se torna verdade. Palavras de um filho repletas da saudade do Pai desaparecido, levado pela doença, eternizado em tudo: na cal das paredes, na casa, na carrinha, na terra do jardim, nas gavetas, nas memórias. Sempre nas memórias.

“Morreste-me”, primeira obra de um dos maiores autores contemporâneos portugueses, José Luís Peixoto , levou a dor do escritor para dentro do livro e trouxe, à vista de todos, um talento ímpar, um dom especial.

Sandra Barata Belo e Cátia Ribeiro uniram as palavras de Peixoto, a história real de “Morreste-me” e o poder do palco para criarem uma hora de profundo recolhimento, onde ela, simplesmente a atriz no palco, e todos nós, na plateia, nos unimos para chorar com ele, para nos reerguermos com ele, o escritor.

Na peça a voz da atriz traz-nos a voz do autor, ela é o filho em luto ali filha, e leva-nos até ao Alentejo a uma casa vazia demais para tamanhas recordações, a uma casa dividida em caixotes pequenos demais para tamanho sofrimento.

O texto enleia-se nos caixotes que se abrem e fecham em revelações, nas imagens projetadas, na chuva feita lágrimas que saem da mangueira do jardim, da farinha espalhada no ar, quase neve, quase pó, nos pequenos momentos musicais de António Zambujo.

Tudo começa com as palavras de Peixoto. E só isso bastaria para valer a pena. Mas vai muito além do livro. Há uma atriz inteira, entregue. Há um cenário de descobertas. Há uma encenação de detalhes e de segredos. Há uma casa que nos recebe e um filho/filha imbuído de dor que precisa de nós, que precisa que soframos juntos. Para depois, se fecharem as janelas, as portas, o galinheiro e a coelheira, os caixotes e as despedidas, mas ficarem sempre, para sempre, o melhor que têm as memórias.

 

 

Em cena no Teatro do Bairro (Lisboa)

De 24 Jan a 03 Fev. 4ª a sábado às 21h domingo às 17h

Reservas: 213 473 358 ; 913 211 263

“Morreste-me” é uma adaptação para teatro da obra homónima de José Luís Peixoto

Interpretação: Sandra Barata Belo

 

 

Até sexta, com uma nova ideia.

Andreia Rasga

www.refugiosdefelicidade.blogspot.com