Íris de Maria Garcez – Um conto para curar e encantar

Um conto inspirado sobre os medos do Ser Humano da autoria de Maria Garcez:

Íris

            Era noite no país das estrelas, Íris dormia profundamente na sua rede encantada, rodeada por pequenos pirilampos mágicos. No seu mundo acreditava-se que os pirilampos protegiam as crianças (e os adultos!) durante o sono profundo.

            Tudo parecia ser uma noite igual a tantas outras, mas… estava prestes a acontecer um momento de verdadeira magia. Uma magia que ninguém alguma vez assistira…

De repente Íris acordou sobressaltada, o coração disparou a mil, não sabia muito bem o que sentia no seu coração, era algo que a ultrapassava! Um dos pirilampos que iluminava e dava encanto ao seu sono, observa-a de longe enquanto pensava:

 

–          Fantástico! A magia está mesmo prestes a começar!

 

Enquanto isso, Íris levantou-se rapidamente da sua rede e caminhou pé ante pé pelo corredor que ligava o seu quarto ao dos seus pais. Nesse corredor existia um objecto que esta pequena não gostava mesmo nada! Um espelho! Mas não era um espelho qualquer! Esse espelho, sempre que ela olhava para ele via-o pintado de negro e ela assustava-se tanto!

Quando chegou ao quarto dos pais, abriu a porta subitamente e disse:

 

–          Tenho medo!!! – com o coração a bater rapidamente enfiou-se na cama dos pais.

 

O seu pai, conhecido cientista das estrelas disse-lhe:

 

–          Linda Íris medo? Que patetice! O que sentes mesmo?

 

–          Não sei papá, não sei, mas o meu coração não pára de bater. E é tão rápido sente!!! – disse a pequenina assustada.

 

Rapidamente se ouviu uma voz tranquila, era Zázá, a sua mãe:

–          Meu amor, é só o teu coração a querer falar contigo. Respira fundo, só ele sabe a verdade por detrás do que estás a sentir!

 

–          Mas mamã, como é possível o meu coração falar? – perguntou Íris muito admirada.

 

–          Fecha os olhos, respira fundo e sente o batimento dele…e ouve o que o ele tem para te dizer – respondeu-lhe Zázá.

 

 

Íris fechou os olhos e enrolou-se por baixo dos cobertores, mas… Oh o seu coração batia tão rapidamente que não conseguia sequer pensar! Nisto adormeceu…

Quando deu por si, estava novamente naquele corredor, frente àquele espelho que tanto a amedrontava!

 

–          Mas porque é que eu tenho tanto medo? – perguntou-se para si própria.

 

–          Porque não mergulhas e vês? – respondeu-lhe uma voz.

 

Íris deu um salto e observou tudo ao seu redor. Não estava ninguém no corredor! Quem lhe teria respondido? E nisto, apercebeu-se que a voz vinha diretamente do centro do espelho!

 

–          Mergulhar? Mas como vou eu mergulhar num espelho? – Perguntou ela incrédula.

 

–          Pois bem, experimenta pôr a tua mão aqui, bem no centro e vais ver! –  disse-lhe o espelho.

 

–          Mas é tão escuro – dizia Íris enquanto aproximava a mão do espelho (era demasiado assustador, mas tão tentador!)

 

De repente, e numa fracção de segundos Íris estava dentro do espelho!

Quando abriu os olhos viu-se rodeada de um cenário que lhe era muito familiar, e de pessoas que eram igualmente familiares.

Então, olhando profundamente percebeu que aquele lado do espelho, que ela via sempre tão escuro, era tão, somente, o lugar para onde as pessoas enviam todas as emoções que não gostam, para se esquecerem delas.

 

–          Que estranho… – pensou. – Porque será que as pessoas enviam para aqui aquilo que não gostam? – Eu o que não gosto não envio para lado nenhum! Guardo-o bem dentro de mim para ninguém ver!!

 

De repente, Íris ouviu uns passos, olhou pelo canto do seu olho e viu uma menina a sorrir.

 

–          Ah! Íris! És tu!! – exclamou a menina sorridente!

 

–          Como sabes o meu nome? Eu não te conheço! – respondeu muito assustada Íris.

 

–          Há muito tempo que te espero aqui! Sempre soube que um dia te ias aventurar no espelho mágico! –  disse sorrindo. –  Chamo-me Vilã.

 

–          Vilã?? – exclamou Íris, visivelmente atordoada.

 

–          Desculpa, não disse o meu nome todo! – disse sorrindo –  Sou a Vilã do Medo! – respondeu cheia de certezas.

 

Íris sentiu de novo o seu coração aos saltos! Mas que lugar era aquele? E que nome tão estranho, e ao mesmo tempo, tão curioso tinha aquela menina! E, ainda por cima, era tão parecida com ela! Ficou com Medo…

 

–          Sabes… Do outro lado do espelho os nossos nomes são diferentes! Por exemplo, medo lá é uma emoção, não é um nome! – Disse baixinho Íris.

 

–          A sério? Que engraçado, é que para nós aqui os vossos nomes é que são emoções! Já viste? – disse Vilã do Medo, dando uma pequena gargalhada.

 

–          Mas como podemos ser nós emoções? Nós somos pessoas… !– disse um pouco zangada Íris.

 

–          Ah mas nós deste lado somos pessoas Íris, a única diferença entre nós e vocês, é que nós não enviamos aquilo que não gostamos para o outro lado do espelho. Nós aqui somos tudo aquilo que vocês fogem. Nós aqui somos o vosso espelho. Por isso somos pessoas com emoções! – respondeu um pouco mais séria a Vilã do Medo.

 

–          Então, explica melhor um pouco isso de ser pessoas com emoções! – pediu baixinho Íris.

 

–          Olha, por exemplo, tu sentes medo do outro lado do espelho. Mas não vives o medo. Esse medo quer falar contigo, quer ensinar-te alguma coisa sobre ti! – Começou por dizer Vilã do Medo.

 

Nisto Íris lembrou-se do que a sua mamã lhe tinha dito…

 

E a outra menina do outro lado do espelho continuou. – Sabes tu não consegues olhar para o espelho, porque o espelho mostra-te o teu medo. Por isso é que eu te apareci! Eu sou a Vilã do Medo, porque no espelho eu sou o reflexo do teu medo do lado de lá! E eu só quero que tu me vejas, que percebas que eu sou uma força poderosa, que aparece em momentos muito especiais.

 

–          Momentos especiais? – exclamou completamente surpreendida Íris.

 

–          Sim! Por exemplo, quando vais ao médico, quando vais a um sítio pela primeira vez, quando conheces pessoas novas, quando vais andar pela primeira vez na montanha russa. Quando te apaixonas… – respondeu Vilã.

 

–          A sério? – continuava Íris com espanto.

 

–          Sim, o problema  é que tu não falas comigo. E como não falas, não me ouves e assim eu preciso de crescer dentro de ti para me poderes ver! Entendes? Já reparaste que sou pequenina, e que vivo dentro de um espelho, então tu só me poderias ver se eu fingisse que era grande. Eu só te quero dizer, muitas vezes para teres cuidado, mas que deves experimentar coisas novas! Estás a perceber? – explicou a Vilã do Medo.

–          Mais ou menos… pelo que estou a perceber tu tens uma mensagem para mim, é isso? – perguntou Íris um bocado nervosa.

 

–          Sim. – respondeu a Vilã com prontidão.

 

–          Então qual é? – perguntou Íris com muita ansiedade.

 

–          Que só tu tens dentro do teu coração o poder para me tornar pequenina. Não me podes ver com os olhos que tens, só com os olhos do coração. Porque assim que me vires, vais perceber que sou uma menina como tu, que apenas quer sorrir e brincar! E que aquele espelho que tens no corredor pode ser o teu melhor amigo, porque te pode ensinar muitas coisas! – respondeu com carinho.

 

–          Ensinar-me sobre vocês? – perguntou Íris um pouco confusa.

 

–          Não tontinha! Ensinar sobre ti! Tudo o que tu vês no espelho vive dentro de ti! Como tu não olhas para essas emoções, como tu chamas, então quando olhas para o espelho assustas-te! Porque não sabes que fazem parte daquilo que és! E mais, olhar para o espelho é como olhar para as outras pessoas, elas são os vossos maiores espelhos! E o que te quero dizer é, não precisas ter medo porque tens um grande poder dentro de ti: o Amor.

 

–          Ah então, por exemplo, quando a minha irmã Luna me irrita, na verdade ela está a ensinar-me alguma coisa? – disse Íris.

 

A Vilã do Medo sorriu.

 

Íris de repente começou a ouvir a Vilã do Medo bem lá ao fundo e quando deu por si, estava na sua rede encantada rodeada pelos pirilampos mágicos. Colocou a mão no seu coração, que ainda batia um pouco forte, e disse-lhe baixinho:

 

–          Medo, sei que estás aí para me ensinar alguma coisa…e por isso, só por isso, amo-te. – e adormeceu.

 

À sua volta, todos os pirilampos sabiam que a magia se tinha cumprido naquela noite estrelada e sorriram a brilhar.

 

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