Princesa, ou esta mulher que você é mesmo ?

Princesa, ou esta mulher que você é mesmo ?

Outro dia no shopping conheci uma menininha em uma loja, uma graça, deveria ter uns cinco anos. Ela virou-se pra mim e disse: vamos brincar? Eu sou a bruxa má Beatriz. Então perguntei, então eu vou ser a princesa guerreira? Ela me olhou séria, me analisou e me respondeu. “Não, você pode ser essa mulher que você é mesmo”.

Ela falou com uma convição e uma verdade que só uma criança poderia dizer , que me convenceu que ser a Tathiane poderia ser mais interessante que ser a Princesa Guerreira. Ou não.
Ontem minha mãe me chamou para ir ao shopping, eu virei para ela indignada e respondi, “shopping é lugar de gente bonita, arrumada e saudável, no momento não é o meu lugar”. Uma princesa com certeza não responderia dessa maneira para sua mãe. Mas a Tathiane sim. A minha mãe fez uma observação outro dia, “engraçado… a minha filha tem tantos amigos, todos a adoram e ela os trata muito bem, mas aqui em casa com a família o tratamento é na chibata”. Coisa de princesa ? Certamente que não.

Esses dias não andei muito bem, efeitos colaterais do meu tratamento. O meu humor anda oscilante, mas é verdade que meu humor nunca foi uma constante. Mas estou passando por uma fase em que Deus com misericórdia testa a minha paciência e eu sem clemência, testo a dos outros.

Eu estava refletindo hoje pela manhã, sempre escrevo sobre o que eu penso e em como as coisas devem ser, ou são. Muitas pessoas se identificam, e gostam dos meus textos, elogiam a minha escrita e massageiam o meu ego. Talvez me vejam mesmo como a princesa guerreira, a menina bonitinha e inteligente(embora ela já beire os quarenta), que escreve bem sobre sentimento e comportamento humano. E ainda luta contra o Câncer. Alguns conhecem a Tathiane na intimidade, e sabem que adjetivos como “meiga, um doce de pessoa”, e outros sinônimos para princesa, definitivamente não me cabem. Mas muitos dizem: nossa… Ela é uma fortaleza! Eu achava que o câncer me dava uma certa superioridade em relação a fraqueza dos outros. E eu me convenci que realmente era a princesa guerreira, e os outros também. Eu aceito a guerreira, mas a princesa passou longe.

Eu me contento por hora em ser aquela mulher que eu sou mesmo, mas que se aceita e se permiti. Se permiti chorar, errar, ficar triste, e também se revoltar vez ou outra, e porquê não, se permiti até, não querer dá lugar para aquele idoso no ônibus, principalmente se ela achar que ele está indo para o bingo.

Aceito ser essa mulher que tem pensamentos absurdos como o de preferir ter câncer a pesar noventa kilos. Não fiquem chocados! Eu não morreria de câncer, mas morreria de depressão ou intalada na roleta do ônibus. Eu aceito ser essa mulher que não está mais a fim de trocar experiência na sala de espera do oncologista. Aceito ser essa mulher que não vê a hora de chegar o carnaval, rasgar a fantasia já no primeiro dia, e tomar um porre de tequila, vomitar até cair, nada como passar mal por um motivo realmente idiota, mas por escolha própria, não da radioterapia. Eu aceito ser essa mulher que tem vontade, mas lhe falta a coragem ( a vaidade ainda é um defeito muito latente nela), de pegar a maquina zero e raspar o cabelo, depois olhar no espelho, passar um batom vermelho e dizer, fiz porque eu QUIS. Eu aceito essa mulher que diz que não gosta de bicho, pois ela gosta mesmo é de gente!

Mas, aceito ser essa mulher, que sabe que precisa ser mais humilde e carinhosa com aqueles a sua volta. Aceitar a nós mesmos, pode ser um grande passo para nos modificarmos naquilo que a gente sabe que nos incomoda. E se nos incomoda, imagine aos outros.

Você nem ninguém tem a obrigação de aceitar quem eu sou. Mas eu tenho a obrigação de ser o que eu sou, para você, e principalmente para mim.

Uma menininha me fez entender isso outro dia , que eu posso ser essa mulher que eu sou mesmo, da vida real, e ser tão interessante, tão valente como as heroínas dos contos de fadas, ao mesmo tempo podendo ser portadora das imperfeições do comportamento e do sentimento humano. Sem culpa, mas consciente. Nem princesa, nem bruxa. Mas simplesmente, eu.

Prazer ,

Tathiane Otero.

 

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princesa

 

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