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Traí-te

TRAIÇÃO-006

As lágrimas dela confundiam-se com a intensidade da chuva, do lado de fora da janela. O vento que soprava efusivamente, como quem tenta entrar, abalroar as persianas para lhe secar as malditas lágrimas, que lhe humedeciam o rosto há dois dias. Os lenços de papel acumulados na mesinha de cabeceira, faziam monte, tentando parar o fungar do nariz. Eram três da manhã e o sono teimava em não aparecer. O corpo exausto, a pele dorida, os lábios – de um rosado forte – inchados, os olhos apagados de vida; despejavam toda a raiva do pecado.

A escuridão da noite e o frio do Inverno, eram o reflexo do seu íntimo. Do seu confuso estado de tristeza melancólica, misturado com sentimento de perda, de culpa e arrependimento. Os relâmpagos clareavam o céu, de tempos a tempos, deixando que por momentos se fizesse luz. Não, não era possível sentir ou ver qualquer tipo de luz, naquele momento em que chorava por ele, em que carregava a culpa da sua ida. Do seu justo abandono.

O cérebro entoava, altivamente, palavras recriminatórias como: criminosa, infiel, traidora, pecadora. Sentia-se não mais do que desprezível aos olhos do mundo, do seu mundo – o mesmo que o incluía a ele.

Deixou o corpo deslizar, ligeiramente, ao encontro dos lençóis, aconchegando-se o mais que pode, como se – por todos os motivos e mais alguns – precisasse de, ela própria, se abraçar. Sentir algum reconforto pela perda. Pelo desmoronar da sua vida em menos de duas horas, o tempo que demorara a conversa, há dois dias atrás. A sua humilde e trágica confissão no dia em que o coração não aguentou a mentira entranhada. A mesma que o corroía como um vírus em acção.

Fechou os olhos, com alguma dificuldade, e recordou pela milionésima vez o rosto dele quando chegou a casa, nesse dia: Feliz! Ele vinha feliz, todo o seu rosto sorria, o olhar delicado com que a fitou, traduziu – de imediato – uma espécie de sobressalto, medo. Talvez ele lhe tivesse adivinhado os pensamentos e lido as frases que o coração dorido gritava.

– O que se passa meu amor? – Perguntou ele, ao passar-lhe a mão meiga no rosto.

Ela acarinhou-lhe a mão, levou-a à boca e beijando-lhe os dedos, disse-lhe: – Precisamos de conversar! Uma conversa séria… – E, nesse instante largou-o, voltando-lhe as costas na direcção do sofá. – Senta-te, por favor!

Sentaram-se ambos, lado a lado, sem se tocarem. Ela baixou o rosto envergonhado – temoroso – e entrelaçou as mãos em cima do colo, sentindo as pernas tremerem. Deixou o silêncio tomar conta do momento, durante breves segundos, antes de lhe saírem as primeiras palavras. As primeiras confissões do que sentia, agora, depois de passar pela experiência da traição. Do amor adormecido pela relação resfriada, dos dois. Da culpa de não ter tido a firmeza de dizer que não, de repreender o corpo e as suas carências – antes de falar com ele – de se deixar envolver numa aventura fora do prazo, de não ter resistido aos encantos alheios, que não os dele. Finalmente soltou a palavra: – Traí-te! Traí-te durante uma noite. E hoje não consigo viver com esse peso na consciência, por ter percebido o quanto te amo, o quanto me fazes falta… Mas, mais do que isso, não posso continuar a olhar-te com a mentira estampada no rosto, nos olhos, em todo o corpo… – Terminou em soluços, engolindo as lágrimas acumuladas.

A alma flutuava, como uma pena, de tão leve. Como se o peso do pecado lhe saísse dos ombros e, nesse mesmo instante, o corpo sucumbiu ao medo. O medo da penitência, do quanto lhe custaria a sinceridade.

Ele nunca a interrompeu ao longo de toda a conversa. Nunca argumentou, condenou, questionou ou se fez valer do seu papel de marido traído. Não interpretou o papel de vítima, deixando que, por alguma razão, fosse ela a sentir-se a cornuda. Levantou-se simplesmente e, de passos lentos desapareceu, aparecendo minutos depois com um saco de viagem. – Não posso continuar aqui, contigo!

Ao fim da terceira noite encontrou a carta que ele lhe deixara, debaixo do guarda-jóias, pousado ao lado do monte dos lenços de papel. Um frio miudinho percorreu-lhe a espinha e as lágrimas, já extenuadas, voltaram a lavar-lhe as faces. Abriu-a, assim mesmo!

Começava como começam todas as cartas, com um simples e singelo; “meu amor”.

Continuava com: “Desculpa a minha falta de palavras à tua derradeira confissão. Não pude ficar, não por não te perdoar mas, por não conseguir continuar a viver contigo – não assim – vendo-te livre de pecado, de mentiras quando eu próprio nunca tive a tua coragem e assumir o segredo da minha, traição. Não te mereço a sinceridade, não te mereço as lágrimas nem a dor. Não serei digno de ti até assumir o meu pecado e aos teus pés pedir perdão. Perdão pela minha reles e cobarde falta de sinceridade, quando me escondo em ti para esquecer a verdade.

Amo-te mais que nunca. “

A sinceridade, doa ou não, é sempre a base de toda e qualquer relação

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

(Des)conhecido

paixao

O tempo vai passando e com ele as relações vão-se cobrindo num véu de dúvidas e incertezas que as amaldiçoam, sem os próprios protagonistas se aperceberem ou, simplesmente, resignam-se a ignorar os primeiros sinais.

O que um dia seria um amor eterno – nas promessas trocadas -, um jogo de sedução, tantas vezes alimentado com olhares provocadores, com danças eróticas, esvanece-se num prazo limite de tempo. A intimidade vai-se perdendo à medida que o jogo vai arrefecendo, que as preocupações diárias se tornam a prioridade das relações. De repente, a pessoa que conhecíamos passou a ser a tal que desconhecemos, ou que deixamos de ter tempo para conhecer.

Não, não deixamos de conhecer a pessoa que nos prometeu amor eterno, deixamos sim, de penetrar o seu íntimo, de lhe sentir a força que nos enlouqueceu um dia. Cegamo-nos com o desconhecido que vive connosco, afastando os sentimentos que, em tempos, nos permitiram prometer também.

Neste impasse, nada melhor que reacender essa chama, sem receio, sem medo de jogar no erotismo, que pode ser uma relação. Sem medo de descobrir o amor adormecido, lá bem no fundo, como um coma.

Peça, gentilmente, aos avós que exerçam a sua função e fiquem com os netos, naquela noite. Sim essa mesma! A noite em que voltará a pôr à prova a sua capacidade de sedução.

Compre aquela lingerie, sexy, que viu na montra em promoção. Não, não tenha receio. Vai-lhe ficar a matar!

Tire do armário o vestido escondido e sim, vista-o! Acompanhe-o com aqueles saltos, arrumados na caixa há meses. Sim, esses mesmos.

Coloque as gotas de perfume que ele tanto adora e envie-lhe uma mensagem. Sim, uma mensagem para o telemóvel. Atreva-se a provoca-lo nessas poucas palavras. Marque-lhe a hora, o local e arranque: Espere-o lá… Sim, a esse desconhecido com quem vive. Trate-o como isso mesmo, um desconhecido e deixe o encanto do momento, alimentado pela sua sedução, fazer o resto… Nada melhor que um primeiro (re)encontro para voltar a (re)conhecer o seu (des)conhecido.

A sedução é um papel que se interpreta a dois, num cenário que é a relação.

Autora: Carla Pais

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Um dia havemos de trocar de braços

Há uns anos, numas férias na Quarteira; estendida na minha toalha, de corpo estatelado ao sol e embrenhada no livro de Ricardo Salgueiro, fui desperta por uma cena que me habita na memória até hoje.

Era cedo e o sol já desinquietava o ar num calor abrasador. Decidimos, mesmo assim; pegar no chapéu, nas toalhas, na tralha dos miúdos (que não é pouca) e pôr pés ao caminho, direito à praia. Não era longe nem era perto, era ao fundo da rua. Com a bola a rolar entre os pés dos quatro, paramos para bebericar um café. O costume. – Manhã sem café, não é manhã! –  E isto, é das poucas coisas que não se alteram nas férias.

A voz dos pescadores clandestinos ressoava de um recanto do Mercado, como se ali fosse o verdadeiro negócio da China. Gente aglomerada – em volta deles -, traduzia isso mesmo, boas compras na clandestinidade da pescaria.

Logo à frente, descemos o passeio e postamo-nos no areal, como verdadeiros turistas, tendo em conta a quantidade de bugiganga que carregávamos, para uma simples manhã. Os miúdos entretidos num jogo de pisa e foge com o mar, deixavam-nos descansados para desfrutar das primeiras leituras, intercaladas entre jornais e livros.

O descanso mesmo que saboreado, nunca é total quando se tem duas crianças, com força de viver, de correr, de brincar e tudo o que envolve as palavras. Levantei-me para lhes lançar uma espreitadela e, foi aí que me distraí por completo ao presenciar um casal de idosos, ali mesmo ao lado.

Ele aparentava uns 80 anos, ela mais nova, talvez 70, diria eu. Sozinhos, na sombra do chapéu; ela sentada numa típica cadeira de praia, ele na toalha. Vejo-a levantar-se e hastear-lhe a mão para o erguer. Caminharam os dois na direção do mar; ele, muito lentamente, ela a acompanhá-lo na sua dificuldade de se mover. Pararam, no rebentar das poucas e leves ondas, o tempo dele calçar uns sapatos de água. Nesse instante, ela deu-lhe o braço, como apoio e guiou-o mar adentro até a água lhe cobrir as coxas. O meu coração parou e confesso que pensei: – Vão cair!

No impulso deste meu desabafo, ele atira-se num mergulho e começa a nadar como se não tivesse corpo. Como se o mar o libertasse do peso da idade e lhe devolvesse, gentilmente, a ligeireza da juventude. Todo o peso que carregava na areia desvanecia-se ao nadar, sob o olhar atento da esposa que entretanto o observava enternecida, pronta para lhe oferecer – quem sabe – os seus próprios braços.

A cumplicidade da velhice, não é mais do que, ter alguém com quem trocar de braços.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

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