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Desafio sem limites

Tantas e tantas vezes que nos enchem o rosto de beijos, que nos surpreendem com palavras, estupidamente, dóceis  capazes de derreter um cubo de gelo. Os nossos filhos. É deles que vos quero falar hoje, neste medíocre artigo.

O dia em que se faz o teste. O tal, que em minutos pode mudar por completo a nossa vida. Os dois tracinhos que aparecem, depois da palheta tocar a nossa urina – grávida – é o estado a partir dali. Em condições normais, a alegria que nos penetra o corpo e nos invade o coração, transforma-se em sentimentos que nunca poderíamos sentir, antes de deixar a palheta colidir com o que resta da bexiga.

Tudo muda, até o corpo. Numa mudança consciente, tudo vai ganhando forma. As curvas que se delineiam, o peso que aumenta – substancialmente – e, de repente, já nada serve de agasalho. Crescemos para os lados e inchamos por dentro a cada vez que, orgulhosamente dizemos: – Vou ser mãe!

A primeira ecografia, o milagre da tecnologia, permite-nos conhecer um Ser, que carregamos dentro de nós e protegemos por impulso, pelo prazer de o ver e sentir crescer, saudavelmente.

A ansiedade do primeiro confronto é-nos particularmente difícil, pelo cansaço do corpo em permanente mudança, até que inesperadamente os primeiros sinais da dita hora (em tempos, agora escolhe-se o dia). As contrações, o rebentar das águas, a aflição do pensamento que grita, incessantemente: É agora, é agora, é agora… Como se nos alertasse para o óbvio: A hora do parto!

O parto, um mero e doloroso, pormenor que se apaga da memória segundos após o primeiro choro, aquando a enfermeira nos brinda com a primeira imagem, o primeiro toque e aí; não há mãe que resista a lágrimas. – O nosso bebé – Ao mentalizar o pai, que a esta altura, começa a prever as noites em branco.

Finalmente, o primeiro rebento fomenta a ideia de família, a necessidade que temos, no imediato, de o proteger e amar incondicionalmente. Sem livro de instruções, recebemos o nosso primeiro filho como uma bênção e um novo desafio. Um desafio transformado num compromisso sem, direito a divórcio.

Ser Pai é assumir uma profissão, 24 horas por dia, durante uma vida.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

No fim da linha

Toca o maldito despertador, deitando por terra os encantados sonhos dessa noite, ficando a única sensação de que, ainda há poucas horas se deitara.

Vira-se e apercebe-se que ele ainda dorme. Nada melhor que uma cotovelada bem assente – Toca a acordar! – e aguardar que se mexa. Solta um leve grunhido e permanece embrenhado no son(h)o.

As crianças decidem tomar as vezes do despertador e substituem o típico som do pi, por uma berraria em coro – Calma que a mãe já vai! – não há alternativa. É pôr o pé fora da cama e começar o dia, na sua monotonia desenfreada. O pequeno-almoço na mesa – quando há tempo – vestir as crianças, preparar as mochilas, lavar os dentes e numa correria, estupidamente monitorizada, deixar um minuto para gritar: Até logo!

A azáfama do trânsito que contamina, cada vez mais, os acessos reduz a margem de tempo, para cumprir horários. Em cima da hora, porque o seu relógio se mantem atrasado 2 ou 3 minutos (propositadamente ou não), pica o ponto.

A hora do café, em contra mão; o chefe no seu melhor humor; os clientes que não dão sossego; as colegas que, enfim… – e, nem um telefonema dele. Nem dela.

Na hora de saída, já atrasada, volta a acelerar para buscar as crianças, que ainda se encontram na escola, a brincar, àquela hora. Desacelera a respiração para parecer tranquila (tudo mentira). Toca a andar que já é tarde para fazer o jantar – coisa rápida – porque os miúdos têm que se deitar cedo. Amanhã é outro dia.

Perguntas ocasionais – Como correu o teu dia? – em busca de assunto, para terminarem a noite. Resumindo as respostas a meras casualidades, como se delas fosse feito o dia, que não é! O toque das mãos a vaguear pelo corpo, arrematado com um: – Estou cansada! – Assim que fecham os olhos procuram, ambos, incessantemente, o sonho perdido na noite anterior, deixando passar os anos, até que o primeiro tenha a ousadia de assumir: – Estamos no fim da linha! Acabou!

Teima a pergunta do outro lado: – Acabou como?

Toda a flor que não for regada e adubada morre.

As relações não são mais que flores, um dia semeadas, que urgem de ser regadas e adubadas.

Autora: Carla Pais

IDEIAS ÀS SEXTAS Na saúde e na doença, no amor e para o amor

“Amor” é um filme perturbadoramente silencioso, que fica a fazer barulho dentro de nós dias a fio, que nos pesa e nos inquieta, que nos sensibiliza e aterroriza. Tudo embrenhado no mais completo silêncio.

O realizador austríaco, Michael Haneke, fala-nos de um tempo em que falha a saúde, em que a falência do corpo não se compadece com a vivacidade da alma e em que o amor é, como nunca, cuidar, tratar, atender, atentar, ao outro. Aquele que é parte de nós por toda uma vida, que nos deu filhos, tempo, experiências, momentos e, agora, nos 80 da vida, se vê obrigado a pedir-nos tudo, a abdicarmos de nós mesmos para cuidarmos do nosso par.

Os atores Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant são os nossos rostos, as nossas rugas, as nossas fragilidades de um tempo que ainda não chegou mas está mais próximo do que auguramos.

A história apresenta-nos Georges e Anne, um casal octogenário com uma vida inteira dedicada à música e à cultura, cujo amor de toda essa vida é posto à prova quando Anne sofre um acidente vascular-cerebral que lhe paralisa metade do corpo.

Votados a si próprios, com uma filha (Isabelle Huppert) a viver no estrangeiro, contam apenas com a resistência de Georges para enfrentar a doença de Anne. Contam, acima de tudo, com o amor que os trouxe até ali para os levar só um pouco mais além.

Vencedor da “Palma de Ouro”, em Cannes, e candidato a melhor filme e melhor atriz principal nos próximos Óscares, “Amor” é um retrato da sociedade que temos, em que o fim da vida se faz muitas vezes de solidão, mas em que teimamos acreditar que o amor vale muito, que o amor vale tudo.

Título original: Amour
Idioma: Francês
Direção: Michael Haneke
Duração: 127 minutos
Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Rita Blanco.
Ainda em exibição.
 

Até à próxima sexta, com mais uma ideia.

Andreia Rasga



Andreia Rasga tem 33 anos é mãe, mulher, jornalista, colecionadora de palavras e de ideias. Licenciada em Comunicação Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, desde muito jovem trabalhou em vários órgãos de imprensa e rádio. Há 9 anos que exerce funções como editora de livros das mais diversas temáticas e para todas as faixas etárias. É autora e formadora do Workshop “Fazer um Livro. Da Ideia ao Papel”. Mais informações em http://oficinasescritabertrand.blogspot.pt/
Escreve regularmente no blogue http://refugiosdefelicidade.blogspot.pt/e, agora, está presente no Sou Mulher Moderna todas as sextas.

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