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Um pão a mais

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Ana tinha acabado de dar banho ao filho mais novo, de três anos, e preparava-se para colocar o frango no forno quando o mais velho, trancado no quarto a fazer os trabalhos da escola, a chamou duas vezes seguidas em voz crescente. Ana limitou-se a responder uma única vez.

– Já vou!

Tiago, o filho mais velho, ansioso, pegou nas pernas, abriu a porta do quarto e meteu-se na cozinha ao lado da mãe.

– Hoje aconteceu uma coisa lá na escola…

Ana fechou o forno, limpou as mãos ao pano pousado na bancada e centrou-se nele, curiosa.

– Então e que coisa foi essa?

– O pai do Pedro, o meu amigo, ficou sem trabalho como aquela tua amiga, sabes?

A mãe enrugou a testa ligeiramente e percebeu a ansiedade dele em querer falar do assunto.

– Sei. Então e falaram disso na escola? – Quis ela saber.

– Sim. O Pedro contou-nos.

– O que contou o teu amigo?

– Que não levava lanche porque o pai não tinha trabalho e a mãe estava doente e só chorava…

Ana assumiu, sem querer, uma expressão de comovida. Naquele momento não queria demonstrar pena, mas foi inevitável e antes que lhe surgissem as palavras certas, o miúdo apercebeu-se e para a tranquilizar, continuou.

– Mas não te preocupes mãe, eu e o Lucas dividimos o nosso lanche com ele e amanhã levo um pão a mais – disse inocentemente, com uma voz tão doce que enchia de orgulho o coração de qualquer mãe – como tu fizeste à tua amiga, pode ser?

Os lábios de Ana desenharam um sorriso contido para disfarçar a preocupação, do assunto trazido a lume, pelo filho de apenas oito anos.

– Claro que pode Tiago! – Concordou ao acariciar-lhe o rosto, ainda de criança.

Tiago enlaçou-a com os dois braços à volta da cintura e apertou-a com força.

– És a melhor mãe do mundo! – Confessou contra o corpo dela.

Ana pegou-o ao colo e repuxou-lhe a bochecha com um beijo. – Tu é que és o melhor filho do mundo.

As crianças são um reflexo do nosso comportamento, a solidariedade é um sentimento que se solidifica com atos.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

Depois de ti

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Naquela manhã de Dezembro, quase véspera de Natal, foi o silêncio que acordou a madrugada. O vento embatia nas janelas a uma velocidade assustadora, como se fosse sua intenção derrubá-las, assobiava alto como se a chamasse, mas não, era o silêncio das paredes que perturbavam Isabel. Virou-se na cama e não havia nenhum rosto para acariciar, nenhuma pele para aquecer, nenhuns lábios para beijar ou braços que a envolvessem. Era o frio invernal, deitado ao seu lado, que lembrava, agora, a solidão da casa como se, ali, tivesse nascido um temporal. Os seus olhos quiseram chorar, como choraram dias a fio, depois da ausência, no entanto conteve as lágrimas e, corajosamente, enfrentou o branco das paredes. Levantou-se, pegou no bloco pousado ao seu lado, acendeu o candeeiro e sentou-se a escrever.

23 de Dezembro de 1999

Tantas coisas ficaram por dizer, meu amor. Não esperaste que o tempo se esgotasse em nós e decidiste antecipar a chegada do novo milénio. Alterar todos os planos que fizemos, juntos e em segredo. Todos os passeios que desejávamos fazer, de mãos dadas à beira rio, os beijos que ficaram por saborear. Tantas coisas ficaram por fazer, meu amor.

As promessas quebradas, a meio da jornada – achei eu, inocentemente, que estávamos a meio, ao contrário de ti que a determinaste como findada. Acabou, foi a tua última palavra. Sei, que nada mais há a fazer, vives agora o romper da madrugada no calor de outra cama e eu; fiquei a meio, como quem morre antes do tempo. Não te culpo meu amor. Continuo a pensar-te como meu no passado e trago-te, brandamente, ao presente quando a noite me invade e me permite olhar a tua sombra, ainda viva nesta casa. É quase véspera de Natal e quero que saibas que não chorarei mais por ti, nem hoje, nem amanhã.

Confesso-te; tenho medo que a solidão me engula e me transforme num caso de saudade sem cura. Mas neste momento, em que te escrevo estas palavras e o vento me faz companhia, decido que limparei esta casa da tua sombra, do teu perfume, do teu sorriso, da tua pele, das dores que me habitam no peito e abrirei a porta da rua à tua recordação. Amanhã, quando o dia vencer a noite deixarei que, nesta casa, nasça o sol, que me aqueça como tu já não fazes há meses. E depois, quando a noite voltar a reinar, e as estrelas que antes me pareceram apagadas, voltarem a brilhar, jamais terei frio.

 Não te condeno a falta de amor, quero apenas que saibas, que no meu peito morreu, hoje, a dor e a saudade. Depois de ti, amo-me a mim.

A vida é um ciclo, quando tudo nos parece o fim, eis que, tudo não passa de um (re)começo.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

Eu, tu e o outro

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Antigamente – do que me lembro dessa época – tremíamos, corávamos, treinávamos discursos em frente ao espelho, dias a fio, até finalmente ganharmos a tal coragem, para encarar e comunicar com um “desconhecido”, com um possível amor, com um amigo recente, com alguém que não fazia, até então, parte das nossas relações. E falo disto numa época não tão longínqua quanto se possa imaginar, afinal eu tenho pouco mais de trinta anos e isto acontecia até os meus vinte e muitos.

Hoje tudo mudou. Deixamos de corar, deixamos de treinar discursos – por serem desnecessários –, de não ter assunto para alguém que não conhecemos, por termos a tamanha facilidade de dizer e desdizer qualquer coisa em segundos apenas, através de um clique. Abrimos o computador, acedemos à nossa rede de amigos (conhecidos inicialmente), para depois passarmos a ter uma lista infindável de contactos que nunca vimos, que não sabemos serem reais ou imaginários, que não nos encaram, que não se mostram por todas as razões e mais algumas, que editam cantigas bandidas, que contagiam espécies, que simplesmente falsificam bilhetes de identidade, por lhes ser a partir dali, tão fácil enganar. Falo, está claro, do nosso amigo facebook: rede mundialmente utilizada e partilhada por milhares de pessoas. Uns de boa-fé outros nem tanto – atrevo-me a dizer talvez a maioria e que me perdoem todos os outros. – Os sérios.

E se antes tinhas uma data de rituais a cumprir até te convenceres de que aquele amigo era verdadeiro, que aquele amor era real e sincero, que muitas vezes te faltariam as palavras para descrever sentimentos, hoje é facílimo, ao invés de muito fácil. Fomos assombrados por facilitismos de cliques; likes, aceitar, comentários, publicar, bloquear, apagar, aldrabar, seduzir, e mentiras umas atrás das outras… De repente está tudo em casa, a passear nas ruas do facebook de mãos dadas com namorados que nunca viram, a aceitar e responder a galanteios de amigos sedutores – que tão pouco conhecem – a incendiar provocações alheias da outra esquina e ninguém cora, nem o volume aumenta de tom, a ninguém falta coragem para falar ou sequer calar.

Falta apenas a ousadia de olhar (nos olhos) e viver a vida real. Passear nas ruas esburacadas da vila e perceber que ali, ainda há gente que cora com um simples assobio ou um piropo atirado do cimo do prédio, por não ter as teclas à mão para responder: Obrigada pelo elogio J

Ali, em carne e osso, dir-se-ia em silêncio: Vai-te catar!

Não extingas a tua vida no ecrã de um computador, para que nunca percas a beleza de corar e assim viver.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

 

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