Posts Tagged ‘Carla Pais’

A primeira de muitas (Parte II)

violência-doméstica

A porta do quarto era o muro de proteção contra o estado descontrolado do pai, o álcool que lhe viram jorrar do olhar, assim que o encararam à entrada, de sacos na mão.

Fecharam-na com força, como se a força fosse o resultado de não se voltar a abrir. Não nas próximas horas, quem sabe até para sempre. Era ali que se refugiavam, entre a janela que dava para a rua e o roupeiro meio vazio, para que coubessem os dois, lá dentro. Fora assim que a mãe os tinha ensinado, a protegerem-se do barulho, dos gritos do pai, frisava ela cada vez que os treinava como se treinam crianças para um terramoto.

– Anda Guilherme. – Chamou baixinho o mais velho, enquanto corria as cortinas para o lado e abria a porta do roupeiro.

– Chhh… Não faças barulho Diogo. – Balbuciou o mais novo já com os olhos marejados. – Tenho medo.

O mais velho empurrou-o para dentro do armário e seguiu atrás dele, puxando a porta vagarosamente. Lá dentro tinham uma pequena lanterna guardada, com luz muito branda, dizia a mãe que era para espantar os fantasmas. O Diogo recordou as regras e acendeu a lanterna, apontando-a para o teto do roupeiro. Abraçou o irmão e sossegou-lhe as lágrimas e os fungos, silenciando-o. Permaneceram, ali, agarrados sem tempo ou espaço para sorrir. Aos primeiros gritos do pai encolheram, ambos, as cabeças no pescoço, um do outro, e cobriram-nas pelas roupas penduradas, abafando o eco da discussão.

No primeiro embate da mãe contra a quina do frigorífico, Diogo saltou do armário, subiu a cadeira e pendurou-se na janela, que abriu. Os soluços cessaram e deram voz a gritos desbaratinados de chamada de atenção. Guinchou, chamou e por fim berrou: – Ajuda!

O mais novo mantinha-se enroscado – dentro do armário – no próprio corpo sob as ordens expressas do irmão que a todo custo tentava acudir a mãe das agressões do pai.

Quando a vizinha veio à porta, inquietada pelo barulho, viu-lhe a aflição no rosto, o medo do olhar estava mais acentuado e todo ele tremia do lado de dentro da janela. Eram os cinco anos do Diogo a gritar socorro.

Ele assustou-se, ainda mais, assim que a viu, por não ter tempo de lhe explicar as dores da mãe e a barbaridade do pai. Desceu da cadeira à pressa depois de a ver pegar no telemóvel e chamar a polícia, ela percebera o sinal pois também, ela, tinha ouvido os gritos.

Puxou o irmão pelo braço: – Vamos, a vizinha já vem ajudar-nos.

Correram os dois ao alcance da mãe, quando a viram caída no chão. O pai sentou-se no sofá e abriu uma cerveja, desavergonhadamente, sem o mínimo arrependimento.

– Ela mereceu, puta de merda. – Bravejou ele, ao ver as lágrimas dos filhos lavarem o rosto da mãe até a acordarem.

Quando a polícia chegou, o silêncio voltou a tomar conta da casa como se nada tivesse acontecido. A tempestade havia passado e talvez da próxima pudesse chegar a primavera. – Quis Ângela acreditar, sem a coragem suficiente para confessar os maus tratos do merdoso do marido, pai dos seus filhos.

As crianças são sementes deitadas ao mundo para florirem, mesmo que em terrenos áridos, são o jardim de amanhã, há que as proteger.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

 

A primeira de muitas (Parte I)

violência-doméstica

Passava pouco das seis e meia da tarde quando Ângela chegou com os miúdos de carro. Dois pestinhas típicos, de 3 e 5 anos, que no olhar traziam infiltrada tristeza, medo disfarçado e alguma angustia, talvez. Ângela abriu-lhes a porta e eles saltaram para o passeio, confinante à casa, como se procurassem o ar que a viagem, ou o dia, lhes roubava a cada vez que se separavam da mãe. Abraçados aos brinquedos, de mochila às costas, numa correria desenfreada, voaram para dentro de casa, tentando assegurar-se se a presença de Manuel, o pai, era uma realidade.

O pai não está, provavelmente atrasou-se no trabalho, disse Ângela ao mais novo sob o olhar atento do mais velho. Cruzaram, ambos, os olhares com o da mãe e esboçaram um sorriso contido, como que aliviados pela sua ausência. O baço dos olhos foi comutado por um pequeno brilho instantâneo, que em segundos voltou a desvanecer.

– Vão brincar. – Mandou a mãe de voz doce, enquanto colocava o jantar ao lume, estendia a roupa, lavava a louça do pequeno-almoço, colocava roupa a lavar, fazia as camas desfeitas da manhã, arrumava os brinquedos espalhados pela sala, punha a mesa e, se houvesse um minuto de sobejo, regava as plantas.

Não houve tempo, o pai chegou ao bater das oito horas. O barulho da chave a rodar na porta trouxe alerta. As gargalhadas dos minutos antes calaram-se e o silêncio instalou-se por toda a casa. Nem as moscas zumbiam nos seus afazeres, também elas estariam vigilantes. Aos primeiros passos do pai no chão – agora frio – da sala, sentiu-se no ar o fedor do álcool que o acompanhava e o tlintar das garrafas que trazia no saco da mercearia. Os dois miúdos em sentido, como militares cumpridores, fulminaram-no com o olhar e desapareceram corredor afora, assim que lhe perceberam o semblante carregado, os vincos da pele irados e a expressão gelada.

Todo o corpo de Ângela estremeceu, os músculos retesaram e um frio ártico percorreu-lhe o sangue, gelando-o, assim que o encarou. Toda a escuridão da noite se apoderou da sala iluminada, como um nuvem negra que paira no ar à espera que a violenta tempestade desabe. Não demorou dois minutos até se ouvir a sua voz rude e ébria – apenas o tempo dele pousar os sacos em cima da bancada da cozinha – a ecoar o teto da sala.

– O jantar? – Perguntou arrogantemente.

– Está a acabar de fazer. – Disse ela de cabeça baixa, evitando fixa-lo.

– Anda cá. Dá-me cá um beijo! – Ao caminhar para junto dela.

Ângela estava de costas, virada para o fogão, disfarçando a sua atenção na panela do arroz que começava a ferver. Sentiu-lhe os passos próximos e junto com eles o acercar do pânico dentro dela, o pavor das suas mãos, o nojo da sua boca, a repudia do seu odor – fétido. Não arredou os pés do sítio onde se encontrava até ele a virar de frente e lhe encostar os lábios secos e alcoolizados. Rejeitou o afago, afastando-o ligeiramente a dois palmos.

– Estiveste outra vez a beber, Manuel! Deixa-me por favor. – A sua voz saiu fina e entrecortada. Era, apenas, um pequeno fio de coragem a falar.

Ele agarrou-lhe nos ombros e sacudiu-a bruscamente.

– És mesmo cabra. – Gritou. – Um gajo farto de trabalhar, chega a casa e ainda tem que ouvir estas merdas. – O seu olhar chispava de raiva e por momentos pareceu ódio.

Ela não respondeu. Limitou-se a olhar o chão ainda por varrer.

Ele deu dois passos para traz e quando ela pensou que ele desistira, o braço dele recuou e estendeu-se ferozmente, de punho fechado, no olho dela chocalhando-lhe a cara contra a quina do frigorífico, ali mesmo ao lado. Pegou numa cadeira a atirou-a, com fraca pontaria, contra a parede da lareira. Voltou novamente a sua atenção a Ângela e viu-lhe o sangue que escorria do lábio. Não satisfeito, com o rosto desenhado de fúria, voltou a assentar-lhe a mão, desta vez aberta, no centro do nariz, enquanto a apelidava de todas as putas possíveis e imaginárias.

Quando o corpo, debilitado e agredido, de Ângela sucumbiu, embateu primeiramente contra a mesa da cozinha e toda a louça caiu. O estardalhaço da queda foi a gota d´água para os primeiros choros vindos do quarto, onde estavam abrigadas as crianças. Os dois correram direito à mãe, aluída no chão, e gritaram, vezes sem conta, o seu nome – Mãe. Choraram socorro, engasgados no próprio sufoco mas, a ajuda não chegou, antes da mãe acordar.

(continua…)

Tão cobarde é o que bate, como mais o é, aquele que cala.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

Ciume encabrestado

Que atire a primeira pedra quem nunca pecou. Que se atire da Ponte 25 de Abril quem nunca sentiu ciúmes. E dito assim, desta forma, teríamos uma imensa fila na travessia sobre o Tejo e os últimos a sucumbir seriam os bombeiros por terem de nos salvar a todos, antes.

Todos nós em alguma fase da relação já sentimos, uma pontinha de ciúme, uma linha de ciúme ou uma ciumeira encabrestada que, por pouco não acabou em bofetada (que a violência implícita seja de foro literário e não físico).

O ciúme é tão vasto, no que toca a emoções, que resumido seria apenas medo. Medo de perder. Medo da ameaça – real ou imaginária – que criamos ou sentimos a cada vez que alguém ousa pousar um fio de nada no que achamos ser nosso por direito, o amor. O amor que sentimos e que nos alimenta, dia após dia, noite após noite, passando a fazer parte de nós, da nossa vida; como o ar, a água ou o sangue que nos corre nas veias. E pronto, a partir dali – do dia em que ousamos amar – ficamos susceptíveis a sofrer de tal patologia: ciúmes.

Read more »

Disclaimer : All content including images in this site is copyright to their rightful owners. No copyright infringement is intended. Todas as imagens pertencem aos seus legítimos proprietários, e não se pretende violar os direitos de autor, pelo que se você for o detentor de alguma das imagens e as deseja remover entre em contacto. Obrigada.
Wordpress theme provided by My services listed along with Im higher directory, click here for radio stations and logo