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Um dia havemos de trocar de braços

Há uns anos, numas férias na Quarteira; estendida na minha toalha, de corpo estatelado ao sol e embrenhada no livro de Ricardo Salgueiro, fui desperta por uma cena que me habita na memória até hoje.

Era cedo e o sol já desinquietava o ar num calor abrasador. Decidimos, mesmo assim; pegar no chapéu, nas toalhas, na tralha dos miúdos (que não é pouca) e pôr pés ao caminho, direito à praia. Não era longe nem era perto, era ao fundo da rua. Com a bola a rolar entre os pés dos quatro, paramos para bebericar um café. O costume. – Manhã sem café, não é manhã! –  E isto, é das poucas coisas que não se alteram nas férias.

A voz dos pescadores clandestinos ressoava de um recanto do Mercado, como se ali fosse o verdadeiro negócio da China. Gente aglomerada – em volta deles -, traduzia isso mesmo, boas compras na clandestinidade da pescaria.

Logo à frente, descemos o passeio e postamo-nos no areal, como verdadeiros turistas, tendo em conta a quantidade de bugiganga que carregávamos, para uma simples manhã. Os miúdos entretidos num jogo de pisa e foge com o mar, deixavam-nos descansados para desfrutar das primeiras leituras, intercaladas entre jornais e livros.

O descanso mesmo que saboreado, nunca é total quando se tem duas crianças, com força de viver, de correr, de brincar e tudo o que envolve as palavras. Levantei-me para lhes lançar uma espreitadela e, foi aí que me distraí por completo ao presenciar um casal de idosos, ali mesmo ao lado.

Ele aparentava uns 80 anos, ela mais nova, talvez 70, diria eu. Sozinhos, na sombra do chapéu; ela sentada numa típica cadeira de praia, ele na toalha. Vejo-a levantar-se e hastear-lhe a mão para o erguer. Caminharam os dois na direção do mar; ele, muito lentamente, ela a acompanhá-lo na sua dificuldade de se mover. Pararam, no rebentar das poucas e leves ondas, o tempo dele calçar uns sapatos de água. Nesse instante, ela deu-lhe o braço, como apoio e guiou-o mar adentro até a água lhe cobrir as coxas. O meu coração parou e confesso que pensei: – Vão cair!

No impulso deste meu desabafo, ele atira-se num mergulho e começa a nadar como se não tivesse corpo. Como se o mar o libertasse do peso da idade e lhe devolvesse, gentilmente, a ligeireza da juventude. Todo o peso que carregava na areia desvanecia-se ao nadar, sob o olhar atento da esposa que entretanto o observava enternecida, pronta para lhe oferecer – quem sabe – os seus próprios braços.

A cumplicidade da velhice, não é mais do que, ter alguém com quem trocar de braços.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

Desafio sem limites

Tantas e tantas vezes que nos enchem o rosto de beijos, que nos surpreendem com palavras, estupidamente, dóceis  capazes de derreter um cubo de gelo. Os nossos filhos. É deles que vos quero falar hoje, neste medíocre artigo.

O dia em que se faz o teste. O tal, que em minutos pode mudar por completo a nossa vida. Os dois tracinhos que aparecem, depois da palheta tocar a nossa urina – grávida – é o estado a partir dali. Em condições normais, a alegria que nos penetra o corpo e nos invade o coração, transforma-se em sentimentos que nunca poderíamos sentir, antes de deixar a palheta colidir com o que resta da bexiga.

Tudo muda, até o corpo. Numa mudança consciente, tudo vai ganhando forma. As curvas que se delineiam, o peso que aumenta – substancialmente – e, de repente, já nada serve de agasalho. Crescemos para os lados e inchamos por dentro a cada vez que, orgulhosamente dizemos: – Vou ser mãe!

A primeira ecografia, o milagre da tecnologia, permite-nos conhecer um Ser, que carregamos dentro de nós e protegemos por impulso, pelo prazer de o ver e sentir crescer, saudavelmente.

A ansiedade do primeiro confronto é-nos particularmente difícil, pelo cansaço do corpo em permanente mudança, até que inesperadamente os primeiros sinais da dita hora (em tempos, agora escolhe-se o dia). As contrações, o rebentar das águas, a aflição do pensamento que grita, incessantemente: É agora, é agora, é agora… Como se nos alertasse para o óbvio: A hora do parto!

O parto, um mero e doloroso, pormenor que se apaga da memória segundos após o primeiro choro, aquando a enfermeira nos brinda com a primeira imagem, o primeiro toque e aí; não há mãe que resista a lágrimas. – O nosso bebé – Ao mentalizar o pai, que a esta altura, começa a prever as noites em branco.

Finalmente, o primeiro rebento fomenta a ideia de família, a necessidade que temos, no imediato, de o proteger e amar incondicionalmente. Sem livro de instruções, recebemos o nosso primeiro filho como uma bênção e um novo desafio. Um desafio transformado num compromisso sem, direito a divórcio.

Ser Pai é assumir uma profissão, 24 horas por dia, durante uma vida.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

No fim da linha

Toca o maldito despertador, deitando por terra os encantados sonhos dessa noite, ficando a única sensação de que, ainda há poucas horas se deitara.

Vira-se e apercebe-se que ele ainda dorme. Nada melhor que uma cotovelada bem assente – Toca a acordar! – e aguardar que se mexa. Solta um leve grunhido e permanece embrenhado no son(h)o.

As crianças decidem tomar as vezes do despertador e substituem o típico som do pi, por uma berraria em coro – Calma que a mãe já vai! – não há alternativa. É pôr o pé fora da cama e começar o dia, na sua monotonia desenfreada. O pequeno-almoço na mesa – quando há tempo – vestir as crianças, preparar as mochilas, lavar os dentes e numa correria, estupidamente monitorizada, deixar um minuto para gritar: Até logo!

A azáfama do trânsito que contamina, cada vez mais, os acessos reduz a margem de tempo, para cumprir horários. Em cima da hora, porque o seu relógio se mantem atrasado 2 ou 3 minutos (propositadamente ou não), pica o ponto.

A hora do café, em contra mão; o chefe no seu melhor humor; os clientes que não dão sossego; as colegas que, enfim… – e, nem um telefonema dele. Nem dela.

Na hora de saída, já atrasada, volta a acelerar para buscar as crianças, que ainda se encontram na escola, a brincar, àquela hora. Desacelera a respiração para parecer tranquila (tudo mentira). Toca a andar que já é tarde para fazer o jantar – coisa rápida – porque os miúdos têm que se deitar cedo. Amanhã é outro dia.

Perguntas ocasionais – Como correu o teu dia? – em busca de assunto, para terminarem a noite. Resumindo as respostas a meras casualidades, como se delas fosse feito o dia, que não é! O toque das mãos a vaguear pelo corpo, arrematado com um: – Estou cansada! – Assim que fecham os olhos procuram, ambos, incessantemente, o sonho perdido na noite anterior, deixando passar os anos, até que o primeiro tenha a ousadia de assumir: – Estamos no fim da linha! Acabou!

Teima a pergunta do outro lado: – Acabou como?

Toda a flor que não for regada e adubada morre.

As relações não são mais que flores, um dia semeadas, que urgem de ser regadas e adubadas.

Autora: Carla Pais

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