Posts Tagged ‘Escolha do Parceiro/ Amor / Relacionamento’

Estigma da ilusão

1a021

Todo o seu corpo se tinha, simplesmente, alterado como se fosse de novo adolescente mas ao contrário. A pele do rosto era, agora, toldada pelas rugas do tempo. Os olhos, apesar se serem os mesmos, estavam contaminados por sombras que dificultavam o brilho de outros dias. Os seios, de tanto amamentar, tombavam ao encontro não se sabe de quê. Os mamilos perderam o rosado e escureceram. As ancas, latinas e sensuais, cansaram-se de dar nas vistas e minguaram. As pernas, ai as pernas… Eram agora, mais magras e pintadas de varizes azuladas. O rabo, esse, não perdera volume, apenas firmeza. O peito. Maldito peito que insistia em doer de  frente para o espelho.

E ele? Ele continuava lindo. Mais velho mas lindo. Calvo mas irresistível. A barba esbranquiçada e ainda tão sedutora. A barriga dilatou ligeiramente e manteve-se suave. As mãos, ai as mãos… Engrossaram e tocavam-lhe hoje como nunca o fizeram aos trinta. Demoravam-se nela como se fosse a hora de a saborear, de verdade, com tempo.

– Meu amor estás ótima.

– E tu a ficar mentiroso. – Riu-se.

– Sabes que ainda te amo?

– Mesmo velha e cheia de rugas?

– Olha para mim. Achas que continuo novo?

– Sinceramente acho.

– Ainda bem. É assim que eu, também, te continuo a ver.

Depois daquela idade, deixamos de se admirar ao espelho, permitimos, antes, que seja o espelho a mirar-nos.

Autora: Carla Pais

 http://decarlapais.wordpress.com/

Eu, tu e o outro

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Antigamente – do que me lembro dessa época – tremíamos, corávamos, treinávamos discursos em frente ao espelho, dias a fio, até finalmente ganharmos a tal coragem, para encarar e comunicar com um “desconhecido”, com um possível amor, com um amigo recente, com alguém que não fazia, até então, parte das nossas relações. E falo disto numa época não tão longínqua quanto se possa imaginar, afinal eu tenho pouco mais de trinta anos e isto acontecia até os meus vinte e muitos.

Hoje tudo mudou. Deixamos de corar, deixamos de treinar discursos – por serem desnecessários –, de não ter assunto para alguém que não conhecemos, por termos a tamanha facilidade de dizer e desdizer qualquer coisa em segundos apenas, através de um clique. Abrimos o computador, acedemos à nossa rede de amigos (conhecidos inicialmente), para depois passarmos a ter uma lista infindável de contactos que nunca vimos, que não sabemos serem reais ou imaginários, que não nos encaram, que não se mostram por todas as razões e mais algumas, que editam cantigas bandidas, que contagiam espécies, que simplesmente falsificam bilhetes de identidade, por lhes ser a partir dali, tão fácil enganar. Falo, está claro, do nosso amigo facebook: rede mundialmente utilizada e partilhada por milhares de pessoas. Uns de boa-fé outros nem tanto – atrevo-me a dizer talvez a maioria e que me perdoem todos os outros. – Os sérios.

E se antes tinhas uma data de rituais a cumprir até te convenceres de que aquele amigo era verdadeiro, que aquele amor era real e sincero, que muitas vezes te faltariam as palavras para descrever sentimentos, hoje é facílimo, ao invés de muito fácil. Fomos assombrados por facilitismos de cliques; likes, aceitar, comentários, publicar, bloquear, apagar, aldrabar, seduzir, e mentiras umas atrás das outras… De repente está tudo em casa, a passear nas ruas do facebook de mãos dadas com namorados que nunca viram, a aceitar e responder a galanteios de amigos sedutores – que tão pouco conhecem – a incendiar provocações alheias da outra esquina e ninguém cora, nem o volume aumenta de tom, a ninguém falta coragem para falar ou sequer calar.

Falta apenas a ousadia de olhar (nos olhos) e viver a vida real. Passear nas ruas esburacadas da vila e perceber que ali, ainda há gente que cora com um simples assobio ou um piropo atirado do cimo do prédio, por não ter as teclas à mão para responder: Obrigada pelo elogio J

Ali, em carne e osso, dir-se-ia em silêncio: Vai-te catar!

Não extingas a tua vida no ecrã de um computador, para que nunca percas a beleza de corar e assim viver.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

 

A primeira de muitas (Parte I)

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Passava pouco das seis e meia da tarde quando Ângela chegou com os miúdos de carro. Dois pestinhas típicos, de 3 e 5 anos, que no olhar traziam infiltrada tristeza, medo disfarçado e alguma angustia, talvez. Ângela abriu-lhes a porta e eles saltaram para o passeio, confinante à casa, como se procurassem o ar que a viagem, ou o dia, lhes roubava a cada vez que se separavam da mãe. Abraçados aos brinquedos, de mochila às costas, numa correria desenfreada, voaram para dentro de casa, tentando assegurar-se se a presença de Manuel, o pai, era uma realidade.

O pai não está, provavelmente atrasou-se no trabalho, disse Ângela ao mais novo sob o olhar atento do mais velho. Cruzaram, ambos, os olhares com o da mãe e esboçaram um sorriso contido, como que aliviados pela sua ausência. O baço dos olhos foi comutado por um pequeno brilho instantâneo, que em segundos voltou a desvanecer.

– Vão brincar. – Mandou a mãe de voz doce, enquanto colocava o jantar ao lume, estendia a roupa, lavava a louça do pequeno-almoço, colocava roupa a lavar, fazia as camas desfeitas da manhã, arrumava os brinquedos espalhados pela sala, punha a mesa e, se houvesse um minuto de sobejo, regava as plantas.

Não houve tempo, o pai chegou ao bater das oito horas. O barulho da chave a rodar na porta trouxe alerta. As gargalhadas dos minutos antes calaram-se e o silêncio instalou-se por toda a casa. Nem as moscas zumbiam nos seus afazeres, também elas estariam vigilantes. Aos primeiros passos do pai no chão – agora frio – da sala, sentiu-se no ar o fedor do álcool que o acompanhava e o tlintar das garrafas que trazia no saco da mercearia. Os dois miúdos em sentido, como militares cumpridores, fulminaram-no com o olhar e desapareceram corredor afora, assim que lhe perceberam o semblante carregado, os vincos da pele irados e a expressão gelada.

Todo o corpo de Ângela estremeceu, os músculos retesaram e um frio ártico percorreu-lhe o sangue, gelando-o, assim que o encarou. Toda a escuridão da noite se apoderou da sala iluminada, como um nuvem negra que paira no ar à espera que a violenta tempestade desabe. Não demorou dois minutos até se ouvir a sua voz rude e ébria – apenas o tempo dele pousar os sacos em cima da bancada da cozinha – a ecoar o teto da sala.

– O jantar? – Perguntou arrogantemente.

– Está a acabar de fazer. – Disse ela de cabeça baixa, evitando fixa-lo.

– Anda cá. Dá-me cá um beijo! – Ao caminhar para junto dela.

Ângela estava de costas, virada para o fogão, disfarçando a sua atenção na panela do arroz que começava a ferver. Sentiu-lhe os passos próximos e junto com eles o acercar do pânico dentro dela, o pavor das suas mãos, o nojo da sua boca, a repudia do seu odor – fétido. Não arredou os pés do sítio onde se encontrava até ele a virar de frente e lhe encostar os lábios secos e alcoolizados. Rejeitou o afago, afastando-o ligeiramente a dois palmos.

– Estiveste outra vez a beber, Manuel! Deixa-me por favor. – A sua voz saiu fina e entrecortada. Era, apenas, um pequeno fio de coragem a falar.

Ele agarrou-lhe nos ombros e sacudiu-a bruscamente.

– És mesmo cabra. – Gritou. – Um gajo farto de trabalhar, chega a casa e ainda tem que ouvir estas merdas. – O seu olhar chispava de raiva e por momentos pareceu ódio.

Ela não respondeu. Limitou-se a olhar o chão ainda por varrer.

Ele deu dois passos para traz e quando ela pensou que ele desistira, o braço dele recuou e estendeu-se ferozmente, de punho fechado, no olho dela chocalhando-lhe a cara contra a quina do frigorífico, ali mesmo ao lado. Pegou numa cadeira a atirou-a, com fraca pontaria, contra a parede da lareira. Voltou novamente a sua atenção a Ângela e viu-lhe o sangue que escorria do lábio. Não satisfeito, com o rosto desenhado de fúria, voltou a assentar-lhe a mão, desta vez aberta, no centro do nariz, enquanto a apelidava de todas as putas possíveis e imaginárias.

Quando o corpo, debilitado e agredido, de Ângela sucumbiu, embateu primeiramente contra a mesa da cozinha e toda a louça caiu. O estardalhaço da queda foi a gota d´água para os primeiros choros vindos do quarto, onde estavam abrigadas as crianças. Os dois correram direito à mãe, aluída no chão, e gritaram, vezes sem conta, o seu nome – Mãe. Choraram socorro, engasgados no próprio sufoco mas, a ajuda não chegou, antes da mãe acordar.

(continua…)

Tão cobarde é o que bate, como mais o é, aquele que cala.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

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