Posts Tagged ‘mulher’

Estigma da ilusão

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Todo o seu corpo se tinha, simplesmente, alterado como se fosse de novo adolescente mas ao contrário. A pele do rosto era, agora, toldada pelas rugas do tempo. Os olhos, apesar se serem os mesmos, estavam contaminados por sombras que dificultavam o brilho de outros dias. Os seios, de tanto amamentar, tombavam ao encontro não se sabe de quê. Os mamilos perderam o rosado e escureceram. As ancas, latinas e sensuais, cansaram-se de dar nas vistas e minguaram. As pernas, ai as pernas… Eram agora, mais magras e pintadas de varizes azuladas. O rabo, esse, não perdera volume, apenas firmeza. O peito. Maldito peito que insistia em doer de  frente para o espelho.

E ele? Ele continuava lindo. Mais velho mas lindo. Calvo mas irresistível. A barba esbranquiçada e ainda tão sedutora. A barriga dilatou ligeiramente e manteve-se suave. As mãos, ai as mãos… Engrossaram e tocavam-lhe hoje como nunca o fizeram aos trinta. Demoravam-se nela como se fosse a hora de a saborear, de verdade, com tempo.

– Meu amor estás ótima.

– E tu a ficar mentiroso. – Riu-se.

– Sabes que ainda te amo?

– Mesmo velha e cheia de rugas?

– Olha para mim. Achas que continuo novo?

– Sinceramente acho.

– Ainda bem. É assim que eu, também, te continuo a ver.

Depois daquela idade, deixamos de se admirar ao espelho, permitimos, antes, que seja o espelho a mirar-nos.

Autora: Carla Pais

 http://decarlapais.wordpress.com/

Sobre nós

A sexualidade feminina representou um domínio de classificação secreta durante séculos. A crescente democratização das sociedades, a par da preocupação com a defesa dos direitos humanos, em especial das mulheres, o papel de relevo desempenhado pelos meios de comunicação social, têm contribuído não só para a polinização dos temas, mas sobretudo para a auto-percepção das mulheres relativamente a esta dimensão fundamental do Ser.

No entanto, a excessiva exposição a que se assiste, actualmente, pode correr o risco de tornar banal o que deveria ser especial e de “desviar” o centro para o acessório. Não nos devemos esquecer de que esse papel dos média também tem sido essencial no que respeita à educação sexual dos homens sobre as mulheres.

A este suposto progresso contrapõe-se uma dimensão de difícil abordagem mas sobre a qual é importante reflectir atentamente e que é negligenciada, mesmo silenciada. É o caso da pornografia. A libertação dos “costumes” tornou acessível esta dimensão do sexo ligada aos meios de comunicação e difusão. Não se trata aqui de produzir quaisquer juízos de valor sobre os possíveis “usos” da mesma no âmbito das relações. O que me parece importante referir é a dimensão generalizada de subalternização da mulher e mesmo menorização da mesma no âmbito deste tipo de produções. Longe de projectar uma imagem da mulher como ser parceiro no prazer, a pornografia exibe uma imagem  objectificada da mulher, destinada a cumprir tarefas sexuais ao serviço exclusivo da obtenção do prazer masculino, como prioridade, e destituídas de qualquer dimensão de sexualidade e/ou de afectividade. Este facto, relevante do ponto de vista social e antropológico, é o contrário da libertação da mulher e da vivência em igualdade de direitos com o homem. Podem estas palavras, neste momento, parecer até retrógradas. Mas temo que, a breve prazo, e atendendo ao modo como as jovens gerações constroem o imaginário sexual, estaremos – novamente – a falar do prazer e da sexualidade feminina como um segredo contido. Só que, desta vez, por “distracção” das próprias…

amak

Depois de ti

alguns_sentimentos

Naquela manhã de Dezembro, quase véspera de Natal, foi o silêncio que acordou a madrugada. O vento embatia nas janelas a uma velocidade assustadora, como se fosse sua intenção derrubá-las, assobiava alto como se a chamasse, mas não, era o silêncio das paredes que perturbavam Isabel. Virou-se na cama e não havia nenhum rosto para acariciar, nenhuma pele para aquecer, nenhuns lábios para beijar ou braços que a envolvessem. Era o frio invernal, deitado ao seu lado, que lembrava, agora, a solidão da casa como se, ali, tivesse nascido um temporal. Os seus olhos quiseram chorar, como choraram dias a fio, depois da ausência, no entanto conteve as lágrimas e, corajosamente, enfrentou o branco das paredes. Levantou-se, pegou no bloco pousado ao seu lado, acendeu o candeeiro e sentou-se a escrever.

23 de Dezembro de 1999

Tantas coisas ficaram por dizer, meu amor. Não esperaste que o tempo se esgotasse em nós e decidiste antecipar a chegada do novo milénio. Alterar todos os planos que fizemos, juntos e em segredo. Todos os passeios que desejávamos fazer, de mãos dadas à beira rio, os beijos que ficaram por saborear. Tantas coisas ficaram por fazer, meu amor.

As promessas quebradas, a meio da jornada – achei eu, inocentemente, que estávamos a meio, ao contrário de ti que a determinaste como findada. Acabou, foi a tua última palavra. Sei, que nada mais há a fazer, vives agora o romper da madrugada no calor de outra cama e eu; fiquei a meio, como quem morre antes do tempo. Não te culpo meu amor. Continuo a pensar-te como meu no passado e trago-te, brandamente, ao presente quando a noite me invade e me permite olhar a tua sombra, ainda viva nesta casa. É quase véspera de Natal e quero que saibas que não chorarei mais por ti, nem hoje, nem amanhã.

Confesso-te; tenho medo que a solidão me engula e me transforme num caso de saudade sem cura. Mas neste momento, em que te escrevo estas palavras e o vento me faz companhia, decido que limparei esta casa da tua sombra, do teu perfume, do teu sorriso, da tua pele, das dores que me habitam no peito e abrirei a porta da rua à tua recordação. Amanhã, quando o dia vencer a noite deixarei que, nesta casa, nasça o sol, que me aqueça como tu já não fazes há meses. E depois, quando a noite voltar a reinar, e as estrelas que antes me pareceram apagadas, voltarem a brilhar, jamais terei frio.

 Não te condeno a falta de amor, quero apenas que saibas, que no meu peito morreu, hoje, a dor e a saudade. Depois de ti, amo-me a mim.

A vida é um ciclo, quando tudo nos parece o fim, eis que, tudo não passa de um (re)começo.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

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