Posts Tagged ‘mulheres’

Depois de ti

alguns_sentimentos

Naquela manhã de Dezembro, quase véspera de Natal, foi o silêncio que acordou a madrugada. O vento embatia nas janelas a uma velocidade assustadora, como se fosse sua intenção derrubá-las, assobiava alto como se a chamasse, mas não, era o silêncio das paredes que perturbavam Isabel. Virou-se na cama e não havia nenhum rosto para acariciar, nenhuma pele para aquecer, nenhuns lábios para beijar ou braços que a envolvessem. Era o frio invernal, deitado ao seu lado, que lembrava, agora, a solidão da casa como se, ali, tivesse nascido um temporal. Os seus olhos quiseram chorar, como choraram dias a fio, depois da ausência, no entanto conteve as lágrimas e, corajosamente, enfrentou o branco das paredes. Levantou-se, pegou no bloco pousado ao seu lado, acendeu o candeeiro e sentou-se a escrever.

23 de Dezembro de 1999

Tantas coisas ficaram por dizer, meu amor. Não esperaste que o tempo se esgotasse em nós e decidiste antecipar a chegada do novo milénio. Alterar todos os planos que fizemos, juntos e em segredo. Todos os passeios que desejávamos fazer, de mãos dadas à beira rio, os beijos que ficaram por saborear. Tantas coisas ficaram por fazer, meu amor.

As promessas quebradas, a meio da jornada – achei eu, inocentemente, que estávamos a meio, ao contrário de ti que a determinaste como findada. Acabou, foi a tua última palavra. Sei, que nada mais há a fazer, vives agora o romper da madrugada no calor de outra cama e eu; fiquei a meio, como quem morre antes do tempo. Não te culpo meu amor. Continuo a pensar-te como meu no passado e trago-te, brandamente, ao presente quando a noite me invade e me permite olhar a tua sombra, ainda viva nesta casa. É quase véspera de Natal e quero que saibas que não chorarei mais por ti, nem hoje, nem amanhã.

Confesso-te; tenho medo que a solidão me engula e me transforme num caso de saudade sem cura. Mas neste momento, em que te escrevo estas palavras e o vento me faz companhia, decido que limparei esta casa da tua sombra, do teu perfume, do teu sorriso, da tua pele, das dores que me habitam no peito e abrirei a porta da rua à tua recordação. Amanhã, quando o dia vencer a noite deixarei que, nesta casa, nasça o sol, que me aqueça como tu já não fazes há meses. E depois, quando a noite voltar a reinar, e as estrelas que antes me pareceram apagadas, voltarem a brilhar, jamais terei frio.

 Não te condeno a falta de amor, quero apenas que saibas, que no meu peito morreu, hoje, a dor e a saudade. Depois de ti, amo-me a mim.

A vida é um ciclo, quando tudo nos parece o fim, eis que, tudo não passa de um (re)começo.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

A primeira de muitas (Parte II)

violência-doméstica

A porta do quarto era o muro de proteção contra o estado descontrolado do pai, o álcool que lhe viram jorrar do olhar, assim que o encararam à entrada, de sacos na mão.

Fecharam-na com força, como se a força fosse o resultado de não se voltar a abrir. Não nas próximas horas, quem sabe até para sempre. Era ali que se refugiavam, entre a janela que dava para a rua e o roupeiro meio vazio, para que coubessem os dois, lá dentro. Fora assim que a mãe os tinha ensinado, a protegerem-se do barulho, dos gritos do pai, frisava ela cada vez que os treinava como se treinam crianças para um terramoto.

– Anda Guilherme. – Chamou baixinho o mais velho, enquanto corria as cortinas para o lado e abria a porta do roupeiro.

– Chhh… Não faças barulho Diogo. – Balbuciou o mais novo já com os olhos marejados. – Tenho medo.

O mais velho empurrou-o para dentro do armário e seguiu atrás dele, puxando a porta vagarosamente. Lá dentro tinham uma pequena lanterna guardada, com luz muito branda, dizia a mãe que era para espantar os fantasmas. O Diogo recordou as regras e acendeu a lanterna, apontando-a para o teto do roupeiro. Abraçou o irmão e sossegou-lhe as lágrimas e os fungos, silenciando-o. Permaneceram, ali, agarrados sem tempo ou espaço para sorrir. Aos primeiros gritos do pai encolheram, ambos, as cabeças no pescoço, um do outro, e cobriram-nas pelas roupas penduradas, abafando o eco da discussão.

No primeiro embate da mãe contra a quina do frigorífico, Diogo saltou do armário, subiu a cadeira e pendurou-se na janela, que abriu. Os soluços cessaram e deram voz a gritos desbaratinados de chamada de atenção. Guinchou, chamou e por fim berrou: – Ajuda!

O mais novo mantinha-se enroscado – dentro do armário – no próprio corpo sob as ordens expressas do irmão que a todo custo tentava acudir a mãe das agressões do pai.

Quando a vizinha veio à porta, inquietada pelo barulho, viu-lhe a aflição no rosto, o medo do olhar estava mais acentuado e todo ele tremia do lado de dentro da janela. Eram os cinco anos do Diogo a gritar socorro.

Ele assustou-se, ainda mais, assim que a viu, por não ter tempo de lhe explicar as dores da mãe e a barbaridade do pai. Desceu da cadeira à pressa depois de a ver pegar no telemóvel e chamar a polícia, ela percebera o sinal pois também, ela, tinha ouvido os gritos.

Puxou o irmão pelo braço: – Vamos, a vizinha já vem ajudar-nos.

Correram os dois ao alcance da mãe, quando a viram caída no chão. O pai sentou-se no sofá e abriu uma cerveja, desavergonhadamente, sem o mínimo arrependimento.

– Ela mereceu, puta de merda. – Bravejou ele, ao ver as lágrimas dos filhos lavarem o rosto da mãe até a acordarem.

Quando a polícia chegou, o silêncio voltou a tomar conta da casa como se nada tivesse acontecido. A tempestade havia passado e talvez da próxima pudesse chegar a primavera. – Quis Ângela acreditar, sem a coragem suficiente para confessar os maus tratos do merdoso do marido, pai dos seus filhos.

As crianças são sementes deitadas ao mundo para florirem, mesmo que em terrenos áridos, são o jardim de amanhã, há que as proteger.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

 

Amantizei-me

amantes (1)

Rosa tinha chegado horas antes de Afonso. As horas suficientes, para colocar o empadão no forno e deixá-lo arrefecer ao ponto de não se poder comer, de tão frio que estava. “Maldito trabalho que não o deixa chegar a horas de jantar”, pensou para consigo inúmeras vezes, até ouvir a porta bater. Ela vestia o fato de treino velho e roçado de tantos anos. Esperava-o sentada no sofá quando o viu entrar e pousar o blazer na cadeira, ao mesmo tempo que desapertava ligeiramente a gravata, vermelha.

– Boa noite! – Cumprimentou ele de voz entrecortada e talvez cansada. A sua expressão assumia traços carregados e os seus olhos, cor de avelã, eram sombrios.

Rosa virou-se na direcção dele. – Então atrasaste-te? Fiz empadão… – Comentou com a raiva engasgada na garganta. Não gritou. O seu rosto fatigado traduzia a falta de fome e angústia pela falta das respostas dele.

– Tive uma reunião complicada. Acabei por comer uma sandes no escritório. – Confessou pausadamente, como se não houvesse mais perguntas ou respostas para além daquilo. – Vou-me deitar, Rosa! – Ao dar-lhe um beijo casto nos lábios carentes e secos.

Ela ficou imóvel. Não o questionou quanto à complicação da reunião, ou o repreendeu quanto à sandes. Foi no instante que ficou, novamente, sozinha no silêncio da sala que foi invadida por uma sensação estranha de mentiras. Encolheu os joelhos na direcção do rosto e apertou-os contra o peito, baloiçando-se lentamente. Ficou assim por tempo indeterminado… Como que, hipnotizada com a palavra mentira a martelar-lhe o pensamento.

Levantou-se e – descalça de passos cadentes – palmilhou a madeira do chão até o seu corpo estremecer ao lado do blazer. Parou e mirou-o. Pegou-lhe nas lapelas e cheirou-as. O perfume dele que se misturava com algo… Algo feminino, como se ele trouxesse naquele casaco o segredo dos seus atrasos. “Não pode ser, o Afonso não me faria isso”, disse sem voz, desassossegando, ainda mais o espírito. Voltou a passar-lhe o nariz – em longas inspirações – até sentir o estômago a embolar, o corpo a tremer e o cérebro a gritar incessantemente: Ele tem outra, ele tem outra…

O medo possuía-a, entranhava-se no corpo e incendiava-lhe o sangue de raiva. Meteu a mão no bolso interior do casaco e apalpou o telemóvel. Nesse tacto, o coração dela acelerou descompassadamente e as pernas, metidas no velho fato de treino, tremeram como gelatina. Inspirou profundamente em busca de coragem e foi nesse imediato que o tirou para fora. De mãos trementes correu as suas últimas chamadas, das quais não havia nomes de mulheres. Voltou ao menu e seleccionou as mensagens. Abriu a primeira da lista – recebida às onze e meia, em nome de Roberto – quando leu “meu amor”. Os seus olhos, marejados, desabaram e as lágrimas, contidas, caíram em fio pelas faces rosadas. Os dedos instintivamente correram todas as mensagens e na última marcou o número. Do lado de lá a voz ensonada de uma mulher que atendeu com um sedutor, “Sim amor”.

Rosa desligou. Não havia margem para dúvidas, Afonso tinha uma amante. Colocou o telemóvel no bolso do casaco e voltou para o sofá. Cobriu-se com a manta que, tantas vezes, usavam para se aconchegar, os dois, enquanto assistiam a um filme. Encolheu-se e abraçou o próprio corpo, elanguescido e choroso. Não dormiu, nem tão pouco tentou, não o queria fazer. Não depois de descobrir que o marido adquirira um estado civil paralelo ao de casado.

Na noite seguinte.

Afonso chegou mais cedo – mais cedo que nas últimas noites – para jantar. Rosa trazia um vestido, caqui, tipo envelope, com decote em V e nos pés, uns saltos agulha de tons castanhos. Estava na cozinha, de costas, em frente ao fogão.

– Boa noite! – Disse ele, num tom de espanto, quando lhe pôs a vista em cima e mirou, obscenamente, as suas curvas acentuadas pelo corte do vestido.

Ela virou o rosto e, sensualmente, chupou o dedo indicador, ao provar o molho da carne. – Boa noite, meu amor! – Respondeu ao fitá-lo intensamente. – Serviu-o de um copo de vinho fresco e estendeu-lhe a mão, oferecendo-se para um brinde.

Os copos tlintaram e Afonso fitou-lhe o decote de forma penetrante, relançou os olhos pelas pernas delineadas, em cima dos saltos. – Tu estás… Linda, Rosa. – Assumiu.

Rosa aproximou-se dele. – Gostas? – Sussurrou-lhe lascivamente.

Os músculos dele retesaram de desejo. – Sim, estás sensual.

Ela postou-lhe um beijo repuxado no lóbulo da orelha. – Óptimo, porque a partir d´hoje, também quero ser tua amante.

Estar casado é assumir, publicamente, o estado civil de amantizado

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

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