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Talvez…

Mordeu o lábio, e mexeu o chocolate quente uma vez mais. Olhou em redor, procurando histórias nos rostos expressivos das pessoas. Alguém entrou… Era uma mulher carregada com sacos de compras. No final da tarde, o Café tinha algum movimento.
Olhou pela vidraça, a chuva continuava a cair lá fora. Via-se um imenso colorido de chapéus, ouviam-se passos apressados. Esperava-o… Na verdade, nem ela sabia ao certo porquê ou para quê. Mas continuava ali. Sem imaginar o seu rosto, o seu corpo.
Mas, pressentia a sua voz, as gargalhadas. Ouvia-os rirem de tudo e do nada. A escutar música francesa, pop/rock, blues. A recitarem poesia de Eugénio de Andrade ou de Sophia de Mello Breyner. A partilhar uma maçã verde perdidos entre os lençóis de um quarto de hotel. Atirando água um ao outro em jeito de brincadeira. Fantasiava com a sua língua a roçar no lóbulo das suas orelhas, no seu pescoço. A percorrer-lhe os seios, e perder-se entre as coxas.O toque da sua pele. O início de um beijo lento e terno, que se torna demasiado quente. Como uma chama acesa, que passa a fogo. E queima tudo em redor!..

De súbito, uma criança começou num choro interminável. Uma birra de sono, talvez. Retirou-lhe a concentração, os devaneios. As suas mãos tocaram o cor-de-rosa da gravata. Sinal combinado para ele a reconhecer. Eram amigos virtuais, só tinham “falado” através do Facebook, uma rede social “viciante”. Identificavam-se, e merecia, pelo menos, arriscar tomarem um café. (Apesar de ele ser comprometido, etc, etc. Soava a lugar-comum). As frases que ecoavam dentro de si pareciam tão déjà vu, banais q.b. Se não o conhecesse ele continuaria a fazer parte do seu Mundo imaginário, dos seus sonhos. O que não se chega a concretizar é para sempre. Por outro lado, sendo real, acabaria por a decepcionar, a seu tempo. Igual a tantos outros que passaram pelo seu caminho. Apesar de a terem feito sentir viva, e da partilha de bons momentos. Mesmo os raros homens que lhe tocaram a alma…
No fundo, só precisava de um Amigo de verdade, um abraço apertado!..

Nesse instante sentiu medo. E decidiu “fugir”. Queria ir ver o mar, fotografar o barulho das ondas (seria possível?).
Apertou a gabardina vermelha, confirmou que o fecho das botas pretas estava corrido. E levantou-se. Com tanta precipitação que nem notou a presença dele. Acabava de chegar ao Café. Vagueando com o olhar, em busca de uma gravata às riscas cor-de-rosa. Lá fora a chuva não parecia dar tréguas, encharcando-a.


Fonte da imagem: gustavussilverius.blogspot.com

 

Carta quase de amor

No dia do teu aniversário, ofereço-te…

Notas sobre mim, sobre ti… sobre “nós”

Gosto de escrever e gosto de ti… Também gosto de mim :)!

Conheci-te numa fase da minha vida em que sentia que tudo estava a mudar, sentia-me como se num cruzamento, com vários caminhos, sem saber qual deles seguir… Completamente baralhada. Sentia que estava a viver um momento crucial da minha vida, um momento de definição de rumos, em que o passado tinha que ficar para trás, limpar-me de mágoas, ressentimentos, limpar a alma para começar de novo. Para isso precisava de tempo, tempo sozinha, para meditar, para me encontrar, para pensar nos vários caminhos possíveis e encontrar aquele que, dentro dos meus princípios de vida, me continuasse a garantir aquilo que sempre exigi para mim: respeito por mim própria, acima de tudo, o que já por si inclui muita coisa… Disso nunca abdicaria, nem abdicarei. Pensava, acima de tudo, que tinha que aprender a ser feliz, sem necessidade de qualquer homem – “não precises de mais ninguém, além de ti próprio, para seres feliz” – porque a vida tem coisas demasiadamente belas para que as desprezemos ou subestimemos. O importante seria ver nas pequenas coisas da vida, grandes motivos para ser feliz… Era essa a aprendizagem e a evolução que eu procurava fazer dentro de mim e que, na verdade, continuo a fazer.

A Ana, a nossa amiga Ana, não respeitou este momento, esta fase de recolhimento e de introspeção que eu precisava fazer e… toca a apresentar-me homens, colegas dela, porque para ela o que eu precisava era de arranjar alguém que me fizesse esquecer o passado e olhar com mais esperança e ânimo para o futuro… Como se a felicidade de uma mulher dependesse sempre de ter, ou não, um homem…

Disse-lhe muitas vezes que não andava à procura de ninguém senão de mim própria, mas não ligou… para ela isso não fazia qualquer sentido. Apresentou-me um colega do trabalho, outro colega do trabalho…

E, como eu não me interessava por nenhum, lá apareceste tu. Não me parece que ela nos tenha apresentado para ver se alguma coisa despertaria em nós, hum…. És advogado, estás bem na vida… Na perspetiva dela, bom demais para mim, que sou uma pessoa simples, de origens humildes, embora muito digna, lutadora e firme na luta pelos meus princípios. Se assim não fosse, porque não começaria por me ter apresentado a ti?

Na fase em que tentava “encontrar-me” fiz várias leituras ligadas ao tema… aprendi que nos faz bem escrever, pôr no papel as nossas emoções e sentimentos, sejam elas boas ou más, coisa que deves saber desde sempre, mas que eu, confesso, nunca tinha posto em prática… Criei um blog, apenas acessível a mim, onde escrevo algumas das coisas que me vão acontecendo. A parte que se segue é o primeiro post que coloquei sobre ti:

«Conheci o Alexandre em Outubro, por intermédio da Ana… Já o tinha visto e estado com ele uma vez, algum tempo antes, mas passou-me completamente ao lado, pensei – “este gajo é um adolescente tardio!”.

Mais tarde encontrámo-nos para um café em casa da Ana, café que não chegámos a tomar, conversando sobre o sentido da vida e formas de entender a mesma…

Gostei mais dele: conversador, simpático, pediu-me o nº de telemóvel com o maior à-vontade do mundo, conversou com o Pedro* sobre guitarra e música e sugeriu-me livros que ficou de me trazer… (forma de iniciar uma relação, encontrando-nos outra vez, claro!).»

 

E assim foi: telefonemas, livros, filmes, cafés, um passeio maravilhoso em Mafra…

“Pensa no que pode dar certo, em vez de pensares no que pode dar errado” – pensava eu, mentalizando-me para ser capaz de me envolver com alguém que pouco conhecia, mas, do que conhecia, gostava. “Que tens a perder?”

Algum tempo depois fui com ele para Sintra, passear… Chegámos já de madrugada, acendeu a lareira, abriu uma garrafa de vinho do Porto, brindámos, bebemos e… aconteceu.

“Carpe Diem” – Goza o dia! É (?) a minha nova forma de estar na vida: viver dia-a-dia, sem expectativas e aproveitar tudo o que de bom a vida tiver para me dar, pelo menos é o que tenho tentado interiorizar… E assim foi… Fomos saindo, jantando, almoçando, estando juntos e fomo-nos conhecendo. O Alexandre revelou-se uma pessoa muito especial: generosa como conheci poucas, sempre atenta às necessidades da sua família, despretensiosa e com espírito jovem, positivo e aventureiro…

 

Aceitando um convite que me fizera cerca de um mês antes, fui com ele para fora uns dias. Vimos coisas lindas, muito lindas, que tornaram, para mim, aquela viagem fantástica e inesquecível…

 

Todo este tempo estivemos a conhecer-nos e a conter-nos… pelo menos eu. Quis evitar envolver-me para não sofrer (autodefesa pura) e ele, julgo que o mesmo…

 

Pois é, Alexandre… Tens sido uma espécie de cobaia nesta minha nova forma de encarar a vida! E, continuando como sempre a ser sincera, tenho adorado! Como sempre te tenho dito, e cada vez mais confirmo, és uma pessoa muito especial! Não há ninguém perfeito, eu não o sou com certeza e tu, apesar de estares lá próximo (!?!), também tens os teus “defeitos” ou fragilidades, como lhe queiramos chamar… Somos humanos, enfim!

De qualquer modo, e como não estou ainda muito apurada neste novo conceito de vida, por vezes sinto-me insegura… O que és para mim? Um amigo? Não me envolvo com os meus amigos da forma como nos temos envolvido… Será uma forma de amizade que até agora

 

desconhecia?… De todos estes sentimentos, e do facto de te sentir cada vez mais especial para mim, surgiram aquelas mensagens que te enviei por telemóvel quando estavas de férias. Para além disso, depois de teres estado uns 2 ou 3 dias sem falares comigo, surgiu mais uma pequena nota, que passo a transcrever e que te permitirá conhecer um pouquinho mais de mim:

“Alexandre, acho que os meus receios, em relação a nós, se concretizaram… Ao dizer-te que me começava a sentir envolvida por ti afastaste-te… Imagino que já tenhas passado por algumas deceções, ou até, momentos de sofrimento relacionados com os assuntos do coração… Por isso agora te tenhas tornado tão racional ao ponto de controlares as tuas emoções como estratégia de autodefesa. Compreendo-o porque também foi assim que entrei na nossa “relação”, mas não consegui manter-me assim… Sou do coração, não da cabeça; em mim, o coração tende sempre a falar mais alto e, se não o puder fazer, fica triste, murcho… Sou expansiva, espontânea e impulsiva… Gosto e tenho necessidade de me expressar.

És, realmente, das pessoas mais generosas que conheci, mas quem é comandado pela razão é muito diferente de mim… Pode ser que eu consiga ter o autocontrolo necessário para conseguir manter-te perto de mim, espero ainda ir a tempo…

Se for tarde… terei pena, muita pena, porque és de facto, uma pessoa muito especial!”

 

 

Enfim, Alexandre, acho que já te disse muito sobre mim, sobre como te vejo a ti e sobre como me tenho sentido desde que nos conhecemos. Sei que ainda tenho um longo caminho a percorrer para conseguir ser uma “Zorba”** :), mas gostava imenso que me acompanhasses nesse caminho…

Vou terminar com um texto que encontrei no outro dia na Internet e que julgo que se encaixa no que acabei de escrever para ti e naquilo que gostaria, entre outras coisas, de fazer contigo. Chama-se “Desnudar”:

Encontrar
uma mulher que diz o que pensa,
o que sente e o que pretende,
sem meias verdades,
sem esconder seus pequenos defeitos

 

Vai sendo raro nos dias de hoje, encontrar alguém que seja sincero, que fale com alma…
Sem ser mal interpretado…

Desnudando-se…

A verdadeira excitação está em ver uma mulher despir-se emocionalmente.

Intenso é assistir,
uma mulher desabotoar suas fantasias,
suas dores, sua história.

 

 

É erótico
ver uma mulher que sorri,
que chora, que vacila,
que fica linda sendo sincera,
uma delícia sendo divertida,
que deixa qualquer um maluco, sendo inteligente.

Orgulharmo-nos das nossas falhas, é o que nos torna humanos.

Arrebatador é assistir ao desnudamento de uma mulher.
Não é fácil tirar a roupa, em frente aos espectadores ou ficar pendurada numa banca de jornal.

Mas difícil por difícil,
também é complicado abrir mão de pudores verbais,
expor segredos, revelar o interior.

 

Despir a alma e mostrar a sério quem se é, o que se traz por dentro.

Não conheço strip-tease mais sedutor.

Hoje, no dia do teu aniversário, e com muito carinho e afeto por ti “desnudei-me” mais um pouco… Independentemente do que quer que venha a suceder connosco, quero que saibas que valeu a pena cada minuto que passei contigo. Despeço-me com um beijo doce, quente, com um beijo bom, como tu mereces muitos! :)

 

* meu filho.

**referência a “Alexis Zorba” personagem principal do livro “O Bom Demónio” de Nikos Kazantzakis.

carta de amor

Carta de amor

Fonte da imagem: apontamento-bernardo.blogspot.com

 

 

 

Solidão

Ele vivia sózinho e às vezes sentava-se sózinho lá em cima, nos bancos da Parada, a panhar sol ou a ver a paisagem mil vezes vista mas sempre nova. Morreu sózinho, como viveu e Marvão em peso foi despedir-se dele como se, ao menos hoje, ele não devesse ficar sózinho. Num dia frio. muito frio, em Marvão.

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