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Estigma da ilusão

1a021

Todo o seu corpo se tinha, simplesmente, alterado como se fosse de novo adolescente mas ao contrário. A pele do rosto era, agora, toldada pelas rugas do tempo. Os olhos, apesar se serem os mesmos, estavam contaminados por sombras que dificultavam o brilho de outros dias. Os seios, de tanto amamentar, tombavam ao encontro não se sabe de quê. Os mamilos perderam o rosado e escureceram. As ancas, latinas e sensuais, cansaram-se de dar nas vistas e minguaram. As pernas, ai as pernas… Eram agora, mais magras e pintadas de varizes azuladas. O rabo, esse, não perdera volume, apenas firmeza. O peito. Maldito peito que insistia em doer de  frente para o espelho.

E ele? Ele continuava lindo. Mais velho mas lindo. Calvo mas irresistível. A barba esbranquiçada e ainda tão sedutora. A barriga dilatou ligeiramente e manteve-se suave. As mãos, ai as mãos… Engrossaram e tocavam-lhe hoje como nunca o fizeram aos trinta. Demoravam-se nela como se fosse a hora de a saborear, de verdade, com tempo.

– Meu amor estás ótima.

– E tu a ficar mentiroso. – Riu-se.

– Sabes que ainda te amo?

– Mesmo velha e cheia de rugas?

– Olha para mim. Achas que continuo novo?

– Sinceramente acho.

– Ainda bem. É assim que eu, também, te continuo a ver.

Depois daquela idade, deixamos de se admirar ao espelho, permitimos, antes, que seja o espelho a mirar-nos.

Autora: Carla Pais

 http://decarlapais.wordpress.com/

Um dia havemos de trocar de braços

Há uns anos, numas férias na Quarteira; estendida na minha toalha, de corpo estatelado ao sol e embrenhada no livro de Ricardo Salgueiro, fui desperta por uma cena que me habita na memória até hoje.

Era cedo e o sol já desinquietava o ar num calor abrasador. Decidimos, mesmo assim; pegar no chapéu, nas toalhas, na tralha dos miúdos (que não é pouca) e pôr pés ao caminho, direito à praia. Não era longe nem era perto, era ao fundo da rua. Com a bola a rolar entre os pés dos quatro, paramos para bebericar um café. O costume. – Manhã sem café, não é manhã! –  E isto, é das poucas coisas que não se alteram nas férias.

A voz dos pescadores clandestinos ressoava de um recanto do Mercado, como se ali fosse o verdadeiro negócio da China. Gente aglomerada – em volta deles -, traduzia isso mesmo, boas compras na clandestinidade da pescaria.

Logo à frente, descemos o passeio e postamo-nos no areal, como verdadeiros turistas, tendo em conta a quantidade de bugiganga que carregávamos, para uma simples manhã. Os miúdos entretidos num jogo de pisa e foge com o mar, deixavam-nos descansados para desfrutar das primeiras leituras, intercaladas entre jornais e livros.

O descanso mesmo que saboreado, nunca é total quando se tem duas crianças, com força de viver, de correr, de brincar e tudo o que envolve as palavras. Levantei-me para lhes lançar uma espreitadela e, foi aí que me distraí por completo ao presenciar um casal de idosos, ali mesmo ao lado.

Ele aparentava uns 80 anos, ela mais nova, talvez 70, diria eu. Sozinhos, na sombra do chapéu; ela sentada numa típica cadeira de praia, ele na toalha. Vejo-a levantar-se e hastear-lhe a mão para o erguer. Caminharam os dois na direção do mar; ele, muito lentamente, ela a acompanhá-lo na sua dificuldade de se mover. Pararam, no rebentar das poucas e leves ondas, o tempo dele calçar uns sapatos de água. Nesse instante, ela deu-lhe o braço, como apoio e guiou-o mar adentro até a água lhe cobrir as coxas. O meu coração parou e confesso que pensei: – Vão cair!

No impulso deste meu desabafo, ele atira-se num mergulho e começa a nadar como se não tivesse corpo. Como se o mar o libertasse do peso da idade e lhe devolvesse, gentilmente, a ligeireza da juventude. Todo o peso que carregava na areia desvanecia-se ao nadar, sob o olhar atento da esposa que entretanto o observava enternecida, pronta para lhe oferecer – quem sabe – os seus próprios braços.

A cumplicidade da velhice, não é mais do que, ter alguém com quem trocar de braços.

Autora: Carla Pais

http://decarlapais.wordpress.com/

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