Você tem medo de que ?

Dizem que depois da tempestade vem a bonança. Mas confesso, a bonança me perturba mais que a tempestade! A mansidão de dias mornos me inquieta, me deixam ansiosa e apreensiva. Assusta-me a expectativa do que está por vir, e que não tenho a mínima ideia do que seja. Mas admito, isso também me excita. Pode ser apenas uma chuva no final da tarde seguido de um lindo arco-íris… Ou pode ser o mar se recuando, ou seja, um tsunami se formando. Medo?

Medo? Não do tsunami, pois para mim, estar no olho do furação é o ápice de estar vivo. Medo tenho do que antecede e principalmente do que vem depois. Medo eu tenho é de ver os dias se esgotando em horas lentas e iguais, medo de sonhos que não se tornam realidade, pior, de continuar sonhando-os. Medo de ser previsível, não para os outros, mas para mim. Medo de descobrir de vez quem sou eu. E depois não saber o que fazer comigo! O depois sempre me assustou, depois que se é feliz, depois que se consegue o que quer, depois que ele diz que te ama, depois que se faz 30, depois do câncer. O “depois” me dá impressão de que as “coisas” deixam de ter sentido. Não!!! Não quero! Quero poder não me definir, poder ser um quase automistério, até a última ruga, até o meu último reflexo. Quero poder me olhar no espelho, reconhecer cada marca, cada cicatriz, mas também quero poder ainda me surpreender ao descobrir algo que não estava ali da última vez, seja um pensamento se renovando, um sentimento que se desconstrói, ou até mesmo uma nova ruga.

Mas de tudo, o que mais temo, é que um dia a palavra morra em mim, de uma vez. Tenho comigo, que escrever às vezes me salva a vida, mais ainda, me salva a alma. É o meu instrumento de autoconhecimento, onde me reconheço, me aceito e me renego. Quando a palavra me falta, me torno uma estranha de mim. Viro um automistério de verdade, olho no espelho… Vejo alguém…. Sou eu, as rugas ainda não estão lá. Mas não reconheço o antigo, nem o novo. Pensamento no vazio. Não estou em desconstrução… Estou morta. E disso, eu tenho muito medo!

Tathiane Otero

 

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medo